The New Beginning #19

- Então Luna? Onde é que esse bichano estava? - perguntou a avó.
- Não sei... Um homem encontrou-o e esteve à minha procura, ou seja, do dono dele - expliquei.
- Hmm, e era bonito? - piscou-me o olho.
- Que pergunta... - revirei os olhos.
- Já vi que era - riu-se.
      Mercúrio fez má cara.
- Sabes que estou só a brincar - disse quando ia para a cozinha. Presumi que avó tivesse lido a mente dele.
- Claro - refilou Mercúrio do sofá.
     Fui com a avó para a cozinha e dei de comer a Persifal. Ele estava esfomeado. Aproveitei e dei-lhe banho. Apesar de ele não ser muito fã, teve de ser. Estava cheio de terra. Deve ter ido parar a um jardim qualquer da vizinhança.




3 dias depois 


     Apesar de Sol estar constantemente no meu pensamento, eu conseguia distanciá-lo do meu dia-a-dia. Persifal preenchia uma grande parte do meu vazio, o que ajudava, mas não me satisfazia. Sol é esse vazio, e só até ele regressar isto irá desaparecer. Mas eu não posso esperar por ele. Eu tenho uma responsabilidade e mesmo sabendo que sem ele não a posso cumprir, eu vou tentar, porque eu sou assim, eu não penso apenas em mim.  
- Vai apanhar ar Luna - disse Mercúrio. 
- Han? Disseste alguma coisa? Desculpa, não ouvi... ah estava - interrompeu-me. 
- Estavas a pensar, sim, eu sei. Vai apanhar ar fresco. Passas os teus dias nesta casa, tens que abstrair-te. 
- Pois deves ter razão. Vou dar uma volta pelo bairro para ver se faz algum efeito - disse sem vontade nenhuma. 
     Mesmo Mercúrio não sendo capaz de ler a minha mente, ele podia sentir a confusão na minha cabeça. Só de olhar para mim via-se a luta entre o coração, a razão e os meus valores. E até agora o coração é o perdedor. 
      Saí de casa como Mercúrio me aconselhou. Para ser sincera não estava propriamente animada por sair do conforto do meu cadeirão e do meu aquecedor portátil, Persifal. Faltava pouco para o Outono começar, mas o Verão ainda se fazia sentir. As cores provocantes ainda estavam em força nos jardins, o sol, ou melhor, os raios que Sol deixou no espaço brilhavam sem medo, a brisa cavalgava por entre cada ramo, cada folha, cada flor e com ela trazia dos mais variados perfumes. Vi-me a sorrir devido ao momento mais calmo que tive em semanas. Estes meros segundos relaxaram-me mais que longas horas de sono. Obriguei-me a fechar olhos e sentir a magia que fluía no ar.  
- Sabe bem não sabe? 
- Melhor do que alguma vez poderia imaginar - respondi.
      E foi quando que me apercebi que estava de caras com um estranho, abri os olhos com pânico. 
- Não te assustes - sorriu. 
- Oh, és tu - disse aliviada - Quer dizer... Ah... Hum, a pessoa que salvou Persifal, digo - reformulei. 
- Pelos vistos não te disse o meu nome - disse.
- Pois foi... - respondi vagamente.  
- Chamo-me Tiago - e estendeu a sua mão. 
- Luna - demos um aperto de mão e sorrimos.
      Alerta momento constrangedor. 
- Que bonito nome... Luna - sorriu admirado. 
- Obrigada. O seu também - disse meio tímida. 
- Então? - fez uma careta. - Já não me tratas por tu? - brincou.
     Ele sorria muito. Contudo, o sorriso era encantador. 
- Pois, parece que não sei qual a melhor forma de falar consigo? - Fiz uma careta e ele correspondeu - Hum, contigo? - Riu-se e assentiu. - Então parece que está decidido.  
     Comecei a andar em frente. Não me preocupei com ele, não tinha que o fazer. Aliás, não havia motivo para me sentir constrangida, tímida. 
     Tiago veio a correr atrás de mim e começou a meter conversa. Dei-lhe respostas curtas e suficientes, isso bastava.  - Oh já sei. Estás a jogar aquele jogo. 
- Qual jogo? 
- O jogo de "sou difícil" - sorriu. 
- Eu não estou a jogá-lo, eu sou mesmo difícil - confessei. 
- Hum, estou a ver. Então parece que vou ter de chegar ao teu ponto fraco.
- Isso é muito honroso da tua parte - sorri e encarei-o.
- É a única forma de chegar até ti.
- Mas então diz-me - parei e ficámos frente a frente -, porque queres chegar até mim?
     Sorriu e olhou para baixo, estava a ficar corado mas respondeu - És diferente - disse sério.
- Oh, essa resulta com todas aposto - virei-lhe as costas e continuei a andar.
     Tiago puxou-me pela mão. Do meu ponto de vista não havia espaço suficiente entre nós, no entanto, não me consegui mover. Paralisei e o meu ar desapareceu. Já do ponto de vista dele, se pudéssemos estar mais perto um do outro, estaríamos.
- Eu estou a falar a sério, Luna - disse.
- Então de certeza que não terás problemas em prová-lo - disse a recuperar o fôlego e a virar-lhe as costas de novo.
- Acho que estás a dever-me um café - atirou enquanto se colocava na minha frente.
- A sério? Hum, não me lembro de nada disso - provoquei.
- Vá lá. Eu sei que te lembras.
- Okay. Eu lembro-me.
- Então, vamos? - colocou o seu braço ao meu dispor.
- Por aqui - virei-lhe as costas de novo e caminhei em direção à minha casa.
- Tens mesmo de parar de fazer isso - riu-se ainda um pouco atrás de mim.
- Vai-te habituando - sorri.
     Este meu lado estava escondido e sobre um sono profundo. Tiago despertou isso em mim e eu gostava. Era eu quem estava sobre controle, ou pelo menos gostava de pensar assim. Não quero dar chances a um desconhecido quando ainda tenho o meu coração despedaçado, ferido e desprotegido. Mas também não consigo evitar o pensamento de que este desconhecido possa ajudar a sará-lo. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

expressa-te:

bright petals.