The Broken Trust #25

     Obriguei-me a sair dos braços da avó. Não podia ficar ali para sempre, precisava de falar com Sol. 
     Saí do jardim. O caminho para o quarto de Sol pareceu mais longo do que realmente era. Quando finalmente dei de caras com a sua porta, parei. Estava paralisada. Não sei com que coragem era suposto abrir aquela porta. Não sei com que cara havia de olhá-lo, que palavras dizer. Tudo o que me ocorria não era bom o suficiente. Eu já não era suficiente para ele, pelo menos eu achava isso. Não sou merecedora do seu amor, mas raios, ele também magoou-me muito. Ele abandonou-me. Contudo, eu nunca deixei de sentir o seu amor por mim, nunca. E acho que ele nunca deixou de sentir o meu amor por ele, eu nunca deixei de o sentir. Apesar de tudo. 
      Num ato de impulso, bati à porta. Não esperava resposta e foi isso que aconteceu. O seu absoluto desprezo magoava-me, mas eu tinha de suportar. Respirei fundo, limpei as lágrimas e entrei. 
      Pesado. O ar à nossa volta estava pesado, cheio de tristeza e desilusão. Sol estava sentado na cama, com rastos de lágrimas nas suas faces. Controlei o meu enorme desejo de chorar, e fiquei à beira da porta. Não consegui andar mais. Sol já deve ter dado conta da minha presença, no entanto não proferiu nenhuma palavra. Abri a boca para lhe dizer que não queria que nada disto tivesse acontecido, que o amo muito, mais que tudo, mas antes de conseguir dizer uma sílaba, Sol falou primeiro. 
- Não basta teres coragem de estar com outro homem, ainda tens a lata de vir ter comigo, ao meu quarto? - As suas palavras era afiadas e cortavam cada pedaço que restava do meu coração.
     Engoli em seco. - Não foi bem assim - tentei, em vão, fazê-lo compreender.
- Não foi bem assim? - Sol levantou-se, ficou de pé, a poucos metros de mim, frente a frente - Luna, eu vi. Eu senti o teu desejo! Vais negar? - Gritou. 
     Tremi com a sua voz, mas sabia o que tinha de dizer. 
 - Não vou. Mas sabes porque isto aconteceu? - Fiz uma pausa à espera que ele fosse contra atacar com uma resposta dura e malvada, porém, esperou que falasse de novo - Porque tu abandonaste-me Sol. Tu deixaste-me aqui, sozinha! - Na minha voz cresceu a raiva que ardia dentro de mim. - Tu nem te despediste, tu... Tu apenas foste. 
 - Isso é motivo para me traíres? - A sua tristeza revelou-se na sua voz. 
 - Não é. Tens razão - Limpei as lágrimas. Encarei-o. O seu olhar completamente destroçado fitou-me e eu soube que, naquele momento, parte dele queria deixar-me ir e fazer de conta que nunca existi. Mas a outra... A outra parte dele, queria abraçar-me, pedir-me desculpa e perdoar-me. Essa parte dele era aquela que iria perder contra o seu orgulho. E eu não podia fazer nada quanto a isso. 
- Eu não te mereço - falei - mas tu sabes que, o meu amor por ti nunca morrerá. - Aproximei-me dele, sem medo. Olhei aqueles tristes mas únicos, olhos ambarinos que eu tanto amava. Esqueci o mundo, esqueci este problema que pairava sobre nós. Só não esqueci o meu amor por ele. Não consegui evitar sorrir quando olhei para o seu rosto, toquei-lhe na face e a sua pele quente. Beijei-o. Os lábios quentes dele acolheram os meus, a tristeza desapareceu por segundos. Sol não me tocou. Deixou os seus lábios à minha mercê enquanto que o resto do seu corpo evitava qualquer contacto. O nosso beijo recheado de saudade, desilusão e muito amor trouxe-me um pouco de felicidade, no entanto a tristeza nunca desapareceu. 
      Afastei-me dele. O suficiente para os nossos lábios não se tocarem mais.  
- Espero que consigas desculpar-me, ou pelo menos - hesitei à procura das palavras certas - espero que voltes a olhar para mim com alegria, e não com desilusão.
     Caminhei para fora do quarto, abandonando o calor do seu corpo que tanto me faz falta. Ao fechar a porta do seu quarto, encostei-me a ela e comecei a chorar de novo, lentamente fiquei sentada no chão, encostada à sua porta.



Sol 


     Ouvi alguém a bater à porta e abrir-se, senti um nervosismo dentro de mim que não era meu; era Luna. 
     Não acredito que teve coragem de me vir ver. Não acredito que teve coragem de estar com outro homem. Eu parti, deixa-a, mas ela nem me deixou explicar-lhe. Teve logo de arranjar alguém para me substituir. 
      Luna entrou no meu quarto, sabia que ela iria pedir desculpas mas palavras vindo dela não me convenciam. Não acreditava nela. Será que iria acreditar nela, outra vez? Será que a confiança entre nós foi para sempre quebrada? Antes que ela pudesse dizer algo que faria a minha cabeça ferver, disse: 
- Não basta teres coragem de estar com outro homem, ainda tens a lata de vir ter comigo, ao meu quarto? 
      Luna tentou, como previ, desculpar-se. Com um impulso, a responder ao que Luna tinha acabado de me dizer, gritei-lhe uma parte do que estava preso na minha garganta. Ela tremeu. Pelo menos sentiu as minhas palavras. Percebeu-as. Ela usou o facto de eu ter ido embora como outra desculpa. Será que ela não se ouve? Não vê quão ridícula ela parece? 
     Os seus olhos azuis pelos quais me apaixonei perdidamente, começaram a lacrimejar. Não gostava nada de vê-la assim, apesar de tudo. Parte de mim queria abraçá-la, dizer-lhe que a perdoo e que pedia desculpa por ter ido embora, mas a outra, a parte orgulhosa, não deixava. Ela traiu-me. Não consigo esquecer isso. O momento pairava sobre mim sem querer largar-me. Pergunto-me se algum dia irei conseguir esquecer... Então ela disse "O meu amor por ti nunca morrerá" e sorriu, e quando dei conta, os seus olhos dum azul claro e puro olhavam os meus. Num segundo, eu senti os seus lábios nos meus. O meu toque no dela era inexistente, porém conseguia sentir a maciez da sua pele. Por instantes, eu esqueci os problemas que estavam entre nós. Esqueci tudo. Quase tudo. Quando ia ceder, a realidade fez-se sentir. Luna largou os seus lábios dos meus e falou: 
- Espero que consigas desculpar-me, ou pelo menos.... Espero que voltes a olhar para mim com alegria, e não com desilusão.  
      As suas palavras pairavam no ar com uma força tremenda. Só queria poder esquecer tudo, tê-la de novo, nos meus braços e dizer-lhe porque fui embora e que a amo muito, muito. Mas não podia, ela errou. E o seu erro iria ficar marcado em mim, para sempre.  
     Deitei-me na cama e pus-me a pensar. Nela, em mim, em nós. Não sabia o que iria fazer em relação a isto, só sabia que estava realmente zangado. Acho que nunca estive tão triste e zangado com alguém. Talvez por ser a Luna, a minha Tal. Pois, que grande Tal fui eu arranjar. Trai-me logo quando vou-me embora por qualquer motivo que seja. Espero conseguir desculpá-la.
      E irás, se o teu amor por ela for maior que o erro que ela cometeu, irás desculpá-la. E Sol, ela precisa de ti agora, mais do que nunca - uma voz disse.
      Olhei à volta, à procura de alguém, de algo, mas nada. E apercebi-me, era Lua. Espero mesmo que ela tenha razão, mas a Luna a precisar de mim agora, mais do que nunca? Eu precisava, preciso dela, mais do que nunca, porém aconteceu isto. Os meus olhos queriam fechar-se, entrar num mundo desconhecido nem que fosse por poucas horas, mas não conseguia. O sono faltava-me, a felicidade faltava-me, a confiança em Luna faltava-me. 
      Fecha os olhos - Lua sussurrou.  
     Fiz o que ela mandou e logo adormeci. Entrei num mundo branco e lilás, onde as nuvens pareciam suaves almofadas, e as flores eram graciosas e únicas.  
- Sol - chamou.
      Virei-me e contemplei o seu rosto - Lua - e soltei um leve sorriso. 
- É bom ver-te, pena não ser pelos melhores motivos - aproximou-se. 
- Infelizmente. 
- Precisamos de falar sobre...
- A Luna - dissemos em uníssono. Lua assentiu. 
- Ela corre grande perigo Sol. Ela, tu, e todos nós
- Nós? 
- Sim, nós - e percebi que ela se referia aos Planetas, ao Universo. 
- O Tema voltou? Não senti nada.
- Irás descobrir mais rápido do que tu pensas. E quando o fizeres, não vai ser bom. - Fez uma pausa e acrescentou - Tens de esquecer tudo o que se passa entre ti e ela, e ver mais além. O perigo está mais próximo do que julgas e Luna tem de acreditar em ti quando o descobrires. 
- Porque é que ela não iria acreditar em mim? Foi ela quem quebrou a nossa confiança e não o contrário. 
- Tudo a seu tempo, Sol. Tens de aprender a ouvir mais e a perguntar menos. 
- Pronto, tudo bem.  
      Lua virou-se e foi em direção às grandes árvores de folhas cor de rosa que existiam não muito longe dali. Antes de desaparecer, chamei-a:
- Lua - virou-se e encarou-me - Sabes se... Hum, eu e a Luna vamos ficar bem? 
      Ela sorriu e perguntou - Queres ficar bem com ela? - Assenti - Então sim, vocês vão ficar bem - sempre soltando um sorriso compreensivo, continuou o seu caminho às enormes árvores e desapareceu. 

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