The Unpredictable #31



Luna 



     Os raios de Sol invadiram o quarto acordando-me. O sorriso foi automático quando vi o rosto adormecido de Sol e lembrei-me. Lembrei-me da noite que Sol e eu tivéramos. Mas o melhor de tudo: Sol perdoou-me. Eu sabia-o, desde que o olhei verdadeiramente na cozinha, mas não queria acreditar, podia ser só o coração a falar mais alto. Mas é verdade. Sol é meu de novo. Somente meu. 
     Toquei no seu rosto, suavemente, para não o acordar e beijei-lhe a bochecha. Vesti a sua camisa e fui espreitar ao corredor se estava alguém acordado. Por sorte era ainda de manhãzinha, os raios de Sol acabaram de passar por entre as nuvens e ninguém cá em casa acorda tão cedo, nem mesmo a avó. Calcei as pantufas e caminhei silenciosamente para a cozinha. Fiz o mínimo de barulho e preparei o pequeno-almoço para mim e para Sol.
     Ao subir as escadas fui de encontro com avó. Oh boa. Que fantástico. 
- Luna? - e olhou-me de cima a baixo. 
- Sim? 
- Porque estás vestida assim? 
- Hum... - corei. 
- Pronto, está bem - falou ela depressa. - Mas tens de ter cuidado. Imagina lá que era o teu pai.
     Revirei os olhos.
- Ok avó, bom dia para ti também - e fui para o quarto ignorando os risinhos da avó. 
     Sol continuava adormecido. O seu cabelo estava todo despenteado, o seu rosto perfeito moldado numa serenidade plena que estava banhado pela luz quente dos seus raios. Pousei o tabuleiro no final da cama e fui acordá-lo. 
- Sol - sussurrei-lhe ao ouvido - acorda. 
- Luna? - pronunciou com a voz rouca. 
- Bom dia - sorri-lhe. 
      Sol piscou os olhos vezes seguidas para conseguir ver-me perfeitamente. Sorriu-me e deu-me um beijo suave. 
- Bom dia - disse com um sorriso depois do beijo. 
- Fiz-nos um miminho - e apontei para o tabuleiro. 
- Ótimo porque eu estou esfomeado. - Sentou-se, levou o seu braço à minha cintura e deu-me um beijo na bochecha - Obrigado - disse.
      Sorri.

- Luna. 
- Sim, Sol? - Olhei-o a sorrir, mas ele estava sério. O meu semblante logo se alterou - Passa-se algo? 
- Lembras-te que te disse que precisava de te contar algo que não irias acreditar? 
- Sim - assenti.
- Bem, nós temos mesmo de falar sobre isso. 
- Então fala. Conta-me. 
      Sol hesitou, olhou-me nos olhos, respirou fundo e disse - Luna, o Tiago é o Tema.
      A minha primeira reação foi rir-me. Mas Sol não estava a mentir - infelizmente, não estava.
- O quê? Isso não é possível... - abanei a cabeça, incrédula. - Como é que ele pode ser o Tema? 
- Eu não sei Luna. Eu não reconheci a aparência dele. Ele mudou. Mas os seus olhos... Ele tem o mesmo mal nos seus olhos que eu vira antes de vir para a Terra. Lua confirmou. Ele é mesmo o Tema. 
- Ele beijou-me Sol - sussurrei. - Ele tocou-me... - disse, sentindo-me enojada com o meu próprio corpo.
      Sol abraçou-me. 
- Hey, tenta esquecer, está bem? Eu sei que custa, mas tenta, pode ser? - Afastou-me um pouco e beijou-me a testa. 
- Desculpa, eu... - Sol beijou-me, interrompendo-me. 
- Eu sei.
     Sorriu-me e eu retribui-lhe o sorriso ainda reticente com tudo a envolver Tiago/Tema. No meu corpo comecei a sentir marcas negras, peganhentas e sujas onde Tiago... Tema me tocou. Senti-me de certa forma violada, apesar de tudo o que ele fez ter tido o meu consentimento, a minha aprovação. Mas tinha caído na sua mentira, no seu feitiço, no mundo diferente e único que têm aqueles olhos azuis-esverdeados que agora, para mim, nada eram. 
- Sol... O que vamos fazer? O Tema está aqui. Ele pode atacar-nos a qualquer momento e eu não estou preparada para te proteger, não estou em condições de te preparar para o que quer que seja. 
- Havemos de encontrar uma maneira. Está bem? Não te preocupes com isso agora.  
- Eu vou sempre preocupar-me contigo. Mas ok, eu podia usar mais 5 minutos de paz e sossego. 
- Então vamos fazer bom aproveito desses 5 minutos - Sol lançou-me um olhar convencido.
      Ri-me no seus braços fortes e ele beijou-me.  





      Passado meia hora, eu e Sol finalmente decidimos tomar um banho e descer. Sol iria contar a todos que Tiago é Tema e a avó e eu iríamos logo fazer um plano de treino mais rigoroso. Eu preciso de treinar, preciso de cumprir o meu dever. 
     Estava a pensar seriamente em contar a todos das minhas visões, mas será boa ideia? Quer dizer... Quando eu começar a agir toda cuidadosa e preocupada, Sol será o primeiro a reparar, e logo seguir vem a avó, o meu pai, e Mercúrio. Não queria ter todos atrás de mim. Suspirei. E Vénus? Onde é que essa víbora se encaixa? Tornei a suspirar. O dia mal tinha começado e já estava cansada disto tudo. Só queria aninhar-me a Sol e passar o resto dos meus dias assim.  
     Ao descer as escadas, lado a lado com Sol, senti o seu nervosismo mas também a sua confiança. 
     Quando chegámos à cozinha, de mãos dadas, o semblante de todos mudou. O de avó ficou carinhoso, o de Mercúrio feliz por termos resolvido tudo, o meu pai pareceu feliz mas cauteloso e Vénus transbordava raiva e irritação. 
- Vejo que está tudo resolvido por esses lados - disse Mercúrio.
     Sorri-lhe. Sol tocou-lhe no ombro. 
     Vénus nem se dignava a olhar para nós. Mas reparei que ela não estava com raiva de mim ou de Sol, mas sim com raiva por não ter algo como nós temos. Bem, de qualquer das formas, não quero conversas com ela.  
     Sol e eu nos sentámos, tomámos mais um pequeno-almoço com todos e no final, ele decidiu contar-lhes. Todos estavam chocados, exceto o meu pai. 
- Já sabias? - perguntei-lhe.
- Desconfiava. 
- Mas como? 
- A sua alma, Luna. É puro gelo e maldade - A minha cabeça ficou mais confusa que um labirinto. 
- O teu pai consegue ver o interior das pessoas Luna - disse avó, a abanar a cabeça para a minha burrice. 
- Pronto, desculpa, não sabia... 
- Bem me parecia que já sabias de algo. Ficas-te logo de olho em mim depois de sair do jantar. 
     Plutão assentiu. 
- Mas, e agora? O que vamos fazer? - perguntou Vénus do fundo da mesa. 
- A Luna precisa de treinar pelo menos 4 horas por dia e tem de ser todos os dias. - disse a avó.
     O meu queixo caiu. 
- O QUÊ?! Nem pensar! 
- Luna, tem de ser. 
- Mas mas... Sol apoia-me nisto. 
- Luna... 
     Suspirei e revirei os olhos - Pronto, está bem.
- Podíamos era começar já - sugeriu a avó. - E tu Sol, tu também podias começar a treinar.
- Tudo bem - disse.
- Bem, então eu vou vestir-me.
     Fui para o quarto, Sol e os restantes foram para o jardim. Vesti-me para o treino e Persifal aparece-me no meio do caminho.
- Oh lindo, onde tens andado? - Agarrei-o e fiz-lhe festinhas.
     Percy miou. Soltei-o e deixei-o seguir-me até ao jardim, onde todos me esperavam. Atei o cabelo num rabo de cavalo e preparei-me para levar uma enorme abada da avó, outra vez.

- Luna, agora tens de concentrar. - Assenti - Fecha os olhos e escolhe um alvo. Qualquer coisa ou alguém. Já está? - Assenti de novo. - Quando estiveres pronta, quando a tua energia estiver no auge, abre os olhos e atira. Percebeste?
- Sim.
      Fechei os olhos. Juntei as mãos e uni os indicadores, parecendo uma arma. Concentrei-me no Ar, na força dele, e escolhi o alvo.
     Abri os olhos e lancei todo o meu poder para um pote mesmo ao lado de Vénus, que ficou destruído num único ataque, partindo-se em infinitos bocadinhos. Encarei Vénus e ela estava impressionada.
- Bom tiro, Luna - fitou-me por longos segundos e logo voltou a desligar-se de mim.
      Não lhe respondi. Não sabia o que haveria de lhe dizer. Vénus era um labirinto, um confuso e estranho labirinto. Mas algo em mim sabia que ela não era tão má quanto parecia. Ela só precisava de tempo.

     Faltava pouco de uma hora para o meu treino acabar. Eram quase horas de almoço e eu estava a soar que nem um porco. Um nojento porco. Estava na esperança que avó dissesse que o treino iria acabar mais cedo porque eu me ter esforçado muito hoje, mas não. Obrigou-me a fazer dos exercícios mais exigentes durante a última hora.
Mais dois minutos e eu podia ir-me embora e morrer na cama, quando uma luz apoderou-se do jardim. Não me digam que vem aí outra Vénus. - Pensei. - Só o que me faltava agora. 
      Quem me dera que fosse outra Vénus.
- Tiago?!
- Tema - falou Sol mais para ele do que propriamente para alguém.
- Ora. Decidam-se - sorriu.
- O que estás aqui a fazer, Tema? - perguntei, pronta para o atacar.
Ele aproximou-se, colocou o seu dedo no meu queixo e fitou-me.
- Uma preciosidade deveras. Tens a certeza que não queres refazer a tua escolha?
     Tema falava de Sol, obviamente. - Não. Nunca te escolheria.
- Como Tema, certamente que não. Mas como Tiago, isso já é outra história, não é, Luna? - Soltou um sorriso arrogante e tirou o seu dedo do meu queixo.
- Nunca te escolheria. Independentemente de quem fosses, ou és.
      Suspirou. - Infelizmente, já é uma história que não saberemos o final. - Ignorou-me e virou-se para Sol. - Tudo bem, velho amigo? Vejo que tu e a Luna estão bem.
- O que queres, Tema?
- Bem, matar-te. Mas eu não sou estúpido o suficiente para fazê-lo aqui e agora com todos estes teus... Hum, amigos, presentes.
- Tens medo, é? - Sol sorriu.
- Não se trata de medo, porque acredita, eu conseguiria vencer-vos num piscar de olhos.
     Tema estava longe de mim, mas eu conseguia sentir o frio a apoderar-se do espaço. Arrepiei-me.
- Tenta - Sol falou, irritado.
     Tema iria demonstrar um pouco do seu poder e eu comecei a sentir o meu coração a acelerar. Sol não podia morrer. Eu... Eu não iria permitir. Por isso, preparei-me, concentrei-me. Tema era o meu alvo. Estava pronta para atacá-lo se ele fizesse algum mal a Sol, mas então ele parou. Os braços que estava erguidos baixaram-se. Os olhos possuídos por um azul esbranquiçado ficaram normais de novo, o seu semblante mudou. De convencido e arrogante, passou para curioso e apaixonado... Apaixonado?
     Tema olhava fixamente para Vénus e esta evitava o contacto visual. Por medo, talvez. Tema avançou em direção a ela, todos ficaram a observar. Caminhei em direção a Sol e abracei-o pelo lado direito. Tema ficou a poucos centímetros de distância de Vénus, colocou o seu dedo no queixo dela e levantou o seu rosto para o ver melhor - para ela o ver. O imprevisível aconteceu.
- Eles são o Tal um do outro? - perguntei baixinho chocada.
- Parece que sim, Luna - respondeu Sol.
- Isso faz de Vénus a má, assim como Tema?
- Parece que vamos ter de esperar para descobrir.

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