Fresh Air #34



Tema 



    O vento acariciava cada fio do cabelo ruivo de Vénus. O sorriso que ela trazia iluminava mais o mundo de Tema do que qualquer outra coisa. A sua Tal. A absurda ideia de ele poder ter alguém que o pode realmente amar continuava a surpreendê-lo. Como ele não sabia e o porquê de ser ela ainda menos. Ao olhar por entre a sua alma, Vénus contava-lhe tanto e, ao mesmo tempo, nada. Ela sim era uma caixinha de segredos, um mundo novo pronto para ser explorado. E Tema tinha medo de desapontá-la. E se ele estragasse o bom que nela há? Não queria isso, não queria mesmo nada. 
     Tema virou o rosto para encará-la e lá estava ela: de olhos fechados a absorver o melhor do vento e a sorrir. Sempre a sorrir. 
     A mão de Tema agarrava a mão de Vénus fortemente. Não queria deixá-la cair, não queria deixá-la ir. Vénus não parecia incomodada. Ao olhar de Tema ela segurava a mão dele da mesma forma. Ambos encontraram alguém que pensaram nunca existir e o amor para eles era muito mais valioso do que para qualquer outra pessoa, disso tinham a certeza. 
     Os raios de Sol iriam, a qualquer momento, brilhar por entre as nuvens. Tema levou Vénus de novo para o maravilhoso jardim e por perto encontraram um telhado, onde se sentaram a observar o nascer do Sol.
- Temos de repetir - Vénus disse, a sorrir e ofegante.
- Sempre que quiseres - Tema fitou-a e sorriu-lhe.
     Vénus soltou um bocejo. Parecia cansada o suficiente para dormir mas pela forma como agarrava na mão dele, ela não queria ir-se embora. Então, sem pensar nas palavras que iria proferir, Tema disse:
- Não te queres deitar no meu ombro?
     Ela fitou-o surpreendida e corou.
     Tema percebeu então o impacto do que disse e sentiu a cara a arder. Ainda corado, desviou o olhar e falou desajeitadamente. - Hum... Se não quiseres, tudo bem.
     Vénus chegou-se ao seu Tal e colocou a cabeça no seu ombro.
- Obrigada - sussurrou.
     Como resposta, Tema colocou o seu braço à volta de Vénus. Pousou a mão na sua cintura, cuidadosamente, e ela se aconchegou no corpo dele, adormecendo nos braços do seu Tal. Tema sentia-se realmente feliz. Fechou os olhos, respirou o ar que o rodeava e por instantes conseguiu sentir calor vindo do seu coração e desejou que aquele nascer do Sol partilhado entre eles fosse o primeiro de muitos.



Luna 
1 mês depois 



- PERCY? ONDE ANDAS? 
     Tenho andado à procura do bichano desde que acordei. Está quase na hora do meu treino e ainda não o vi. Ele precisa de comer. 
- AVÓ! 
- Paras de gritar, por favor? 
- Viste o Percy? 
- No jardim, penso eu. Acho que ele estava com o teu pai. 
- Obrigada! 
- E vai vestir-te! Está quase na hora do treino - ralhou avó. 
Bufei. - Vou já! 
     A avó tem andado impossível por não termos notícias da Vénus desde o mês passado. O meu pai e Mercúrio andam stressados por não saberem dela. Sol também anda alerta. Já eu nem quero saber. Porque haveria de estar a preocupar-me se eles iriam aparecer ou não? Se desaparecessem é que era mesmo bom, mas duvido que isso aconteça, portanto o melhor que tenho a fazer é continuar a treinar os meus poderes e a fortalecer-me. Tema não vai conseguir escapar da sua sede de vingança. Por muito que Vénus o ame, ele vai travar esta batalha e ninguém consegue impedir isso, talvez nem ele próprio. Para além do mais, se eu tivesse tido uma oportunidade de me excluir do mundo durante um mês com o Sol teria-lo feito. A Vénus e o Tema só estão a fazer o que qualquer novo casal faria: namorar. 
- Está tudo bem, amor?
- Hum?
- Perguntei-te se está tudo bem. Estás tão distraída.
- Hum, pois, desculpa. Estou à procura do Persifal e esta história da Vénus e Tema entrou de novo na minha cabeça e tenho de me ir arranjar para o treino e depois tenho de ir cuidar das coisas do Percy e... - Sol beijou-me.
-Falas demasiado - sorriu. - E que tal irmos passear?
- Sol... Tenho treino.
- Faltas. É só um dia, o que pode acontecer?
- Tema pode aparecer aqui do nada e começar a atirar gelo por todo o lado e congelar-nos. Isso pode acontecer. Para além do mais, faltar a um treino que é mesmo no meu jardim das traseiras é ridículo.
     Sol colocou as suas mãos no meu rosto
- Então, e depois do treino?
     Hesitei em responder.
- Luna, vá lá! Precisas de sair desta casa, precisas de ar fresco.
- Pronto pronto. - Sol sorriu. - Mas peço desde já desculpa porque de certeza que vou estar super cansada e vou ser a pior companhia de sempre.
- Isso é impossível.
- Claro, claro - ri-me e beijei-o.
     Fiz o meu caminho até ao jardim e lá estava o meu pai a brincar com o Persifal. Estavam tão queridos! E o gatinho já estava tão grande.
- Vejo que vocês se entendem muito bem.
     O meu pai sorriu.
 - É. Ele adora brincar.
- Não queria nada interromper a vossa brincadeira mas o Percy tem de comer.
- Não faz mal, filha - sorriu-me.
     A tal palavra atingiu-me no coração. Ainda não estava habituada a ele me chamar de filha, a alguém chamar-me de filha sem ser a avó. Mas a sensação que trouxe foi das melhores que senti. Abri os meus lábios num sorriso.
- Se quiseres posso tratar das coisas dele e tu vais preparar-te?
- Isso seria ótimo! Obrigada, pai - cheguei-me a ele e dei-lhe um beijo na bochecha. Fiz o meu caminho até ao quarto e mentalizei-me que ia ter mais três horas de treino. Suspirei. Andava nesta rotina à um mês e é claro que noto resultados, mas já estava a ficar farta. Este ambiente de luta, preocupação, um pouco de medo, cansaço e até saudade, começava a consumir-me. Todos estavam stressados e perguntavam-se constantemente se o barulho que ouviram vindo do jardim é Tema pronto para travar uma batalha. O Sol tem razão. Eu realmente preciso de ar fresco.





- Lembra-te: Se o adversário ataca de frente...
- Desvio-me para os lados e ataco no seu ponto fraco. Sim avó, já sei.
- Pronto, vai lá tomar banho para irmos almoçar.
- Ela hoje não almoça cá - disse Sol enquanto colocava o seu braço à minha volta.
- Então?
- Eu e o Sol vamos apanhar ar fresco.
- Não se demorem, está bem? Não podemos baixar a guarda.
- Às tuas ordens, Mondy.
     Sol acompanhou-me até ao quarto e deitou-se na cama.
- Vamos onde?
-  É surpresa - sorriu.
- Pois, admirava-me se não fosse.


- Tens a certeza de que não posso entrar contigo no banho?
- Demasiado tarde - espreitei pela porta enquanto colocava a toalha à volta do corpo. - Já sai do banho.
- Mas isso não impede nada, sabes?
     Sol entrou na casa de banho e agarrou-me por trás. Virei-me e coloquei os meus braços à volta do seu pescoço.
- Por acaso até impede. Não íamos passear?
- Podemos adiar - aproximou-se para me beijar.
     Ignorei-o, larguei-me dos seus braços e fui direita ao armário. Sol soltou um sorriso manhoso.
- Não me consegues escapar, Luna - aproximou-se de novo.
- Nem quero - fitei-o. - Mas quero mesmo sair, Sol. Preciso de sair deste ambiente horrível - disse-lhe. - Se calhar talvez mais tarde? - dei-lhe um beijinho e sorri. - Agora tenho de me ir vestir.
      Beijou-me rapidamente e foi-se deitar na cama.
- Veste-te lá.
     Ri-me
- Não amues.
- Não amuei - respondeu.
     Soltei uma gargalhada. Estes pequeninos momentos com Sol melhoravam o meu dia, consideravelmente. Ele conseguia distrair-me de todo o caos à nossa volta, e eu amo-o por isso.

- Estou pronta! - Sol agarrou-me na mão e fez-me dar uma volta.
- Estás perfeita, como sempre - sorriu, puxou-me pela cintura e beijou-me.
- Vamos onde?
- Já disse que é surpresa.
- Podias ter-te esquecido desse pormenor. Sempre tentei.
- Isso é o que gosto em ti.
- Oh, gostas de me ver envergonhada?
- Não, gosto quando és persistente - beijou-me a bochecha. - Vá, vamos.
     Sol pegou-me na mão e levou-me até ao carro descapotável que estava guardado na garagem. Trazia uma mala cheia de comida e alguma roupa.
- Vamos para Nárnia ou assim?
     Sol encolheu os ombros.
- Se quiseres chamar-lhe assim, por mim tudo bem.
     Entrei no carro ansiosa por chegar ao nosso destino. Não sabia onde iríamos, mas todos os sítios que me ocorriam, neste momento, eram melhores que esta casa.
     Sol ligou o carro e colocou a rádio a dar. O vento começou a voar por entre os meus cabelos e o ar fresco encheu-me de paz. Apesar do Verão estar a acabar, o calor fazia-se sentir. Os raios de Sol brilhavam mesmo em cima de nós. O aromas no ar, a sensação de liberdade e de calma, o sorriso de Sol... Tudo isto aquecia-me o coração e por momentos, esqueci-me completamente de Tema e da sua sede de vingança; esqueci-me completamente de que tenho o Universo a depender de mim e de Sol. Simplesmente esqueci-me. Todos os meus problemas voaram assim que o primeiro sopro de ar voou sobre o meu rosto. E só desejava que este sentimento perdura-se por muito, muito tempo. 

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