Wounded #50



Tema 



     A onda de Luz que envolvia Tema e Noir fazia-os girar. Tema olhou para Noir e viu-o ferido. Por baixo daquele casaco de cabedal preto estava escondida uma ferida horrenda ao longo do seu torso. A t-shirt que ele trazia estava meio rasgada ao longo da ferida. Tema tentou alcançar o braço dele e puxá-lo para mais perto, de modo a ter a certeza de que ficavam juntos, mas não foi capaz. Noir girava para longe. 
- Noir! - Tema gritou roucamente. 
     Sem nenhuma resposta vinda do seu parceiro, Tema tomou controle de si. Começou a usar a força que lhe restava para chegar até Noir e ao início custou-lhe, porém, ele conseguiu chegar até ao seu amigo. Noir abriu os olhos por meros instantes e fechou-os de novo assim que a Luz se intensificou. Tema, com a mão que não segurava o Noir, tapou os olhos e deixou-se levar pelas ondas. 





     Tema e Noir caíram. Eles foram parar a um local luminoso, mas não tanto quanto a onda que os trouxe. Tema foi o primeiro e foi ter com o seu amigo. Noir estava deitado quase ao seu lado de barriga para cima, mostrando o corte ao longo do torso. Aquilo estava feio. Rondou o espaço com o olhar à procura de algo até começar a procurar uma saída.
     Longas colunas estendiam-se pela sala de proporções gigantescas. O teto era enfeitado por flores, plantas trepadeiras e escrituras antigas. Ele reconheceu algumas pinturas. No fundo da sala existiam uns altos portões, selados pela natureza. Do seu lado direito, estavam rochas largas caídas, do seu lado esquerdo, existia uma bela vista de um rio e árvores de fruto. O que o separava da paisagem era um parapeito bordado com escrituras e motivos geométricos. Tema avançou para aquele obstáculo e apoiou-se nele. Observou a vista e sentiu a sua boca carente de água. Colocou-se em cima do parapeito, apoiou a mão numa coluna  e preparou-se para saltar. Quando saltou, Tema foi barrado por uma parede invisível de forças que o impediam de sair daquela sala. Tornou a voltar para perto do parapeito e tocou de novo na barreira, tentando avaliar a sua força. Era poderosíssima. A Magia de Marte era antiga e forte e Tema estava preso naquela sala. Pelo menos por agora.
     Noir mexeu-se e Tema deixou a parede invisível lado. Noir abriu os olhos e fechou-os rapidamente por causa da claridade.
- Luz - disse em tom enojado. 
- Vais explicar-me como fizeste essa ferida enorme - afirmou Tema colocando-se à frente dele.
     Noir não tinha demonstrado qualquer presença de dor até Tema ter introduzido o assunto. O seu rosto cheio de sardas ficou toldado por dor. 
- Pois, deixa-me ver isso, outra vez.
     O Planeta afastou o casaco com muito esforço e deitou-se no chão. A ferida percorria o seu peito na diagonal. Vinha do lado inferior esquerdo (de Tema) e terminava por baixo do mamilo do lado direito. 
- Vou passar água para limpar a ferida.
     Noir assentiu. 
     Tema rasgou mais a t-shirt e começou a passar água nela. Noir gemeu de dor. 
- Não sejas maricas - Tema soltou um sorriso divertido. Noir soltou um riso falso antes de recair na dor.
- Quero ver-te com um corte assim um dia destes - murmurou com os dentes cerrados.
- Não vais ver porque eu não sou desleixado como tu - replicou a Estrela.
- É o que... - Noir começou por dizer, mas Tema mudou-lhe os planos ao passar as mãos com mas força pela pele. Noir riu-se por entre a dor. - Sacana. 
     Tema sorriu e continuou a tratar da ferida do Planeta. 


     Noir adormeceu e Tema ficou sozinho com os seus pensamentos, andando de um lado para o outro. Não conseguia estar sentado e quieto. Ele tentou umas mil vezes abrir aqueles portões mas era inútil. Eles estavam presos naquele lugar como pássaros numa gaiola.
     Sentindo-se derrotado, Tema sentou-se no parapeito e observou a paisagem que lhe era proibida. Ele perdeu-se na imaginação. Diante dos seus olhos passavam momentos criados pela sua mente. A única pessoa que ele queria ver agora estava distante por causa dele. O olhar ardente de Vénus passou pela mente de Tema, seguido do seu caloroso sorriso, o brilhante cabelo ruivo e o seu corpo. Tema achou estar a sonhar, a imaginar tudo, a alucinar, mas ele podia jurar que estava a ver a sua Tal a andar junto ao rio com uma flor branca junto ao rosto. Ele sorriu. Era uma alucinação que Tema queria que não acabasse nunca.
     Só que não era uma alucinação. Vénus estava realmente a andar junto àquele belo rio com um sorriso nos lábios e uma flor no cabelo ruivo. Quando Tema se apercebeu, Vénus estava a afastar-se demasiado da sua vista. Ele exaltou-se. Começou a bater na parede invisível que separava a sua amada dele. Tema chamava por ela, sem sem querer saber se Noir acordaria. Ele gritou o nome dela pela Ligação na esperança de ela lhe dirigir um olhar.
     E então ela olhou. A sua expressão ficou atenta e à procura de algo. Vénus não o via.
     Tema fitou-a com força e extrema concentração, desesperado. Vénus avançou até ao templo, desconfiada. Parou junto ao parapeito, no local onde Tema estava. A parede impedia-a de o ver, mas ele via-a perfeitamente. Vénus colocou uma mão junto à parede de forças, com uma expressão interrogativa no rosto. Tema colocou uma mão no mesmo sítio e ele dava tudo para poder sentir o seu toque, a pele dela na sua.
- Tema? - sussurrou ela baixinho, procurando por ele por toda a parte.
     Ele sorriu mas esse sorriso logo morreu. Vénus virou-lhe as costas e ficou assim algum tempo. As mãos fecharam-se em punhos por instantes. Ela olhou para trás uma última vez, relaxou as mãos e depois afastou-se do templo sem olhar para trás.
     O que Tema sentiu foi algo inigualável: uma sensação de abandono plena combinada com o familiar sentimento de solidão. Ver Vénus afastar-se dele, porque Tema tinha a certeza que ela o tinha sentido, despedaçou-o por completo. Tema sentia-se vazio e agora sabia que as suas ações tinham-lhe custado a sua Tal, a única que podia salvá-lo de si mesmo.
     Ele encostou-se à parede e continuou sentado no parapeito, perguntando-se se algum dia irá fazer algo correto e digno do amor de Vénus.




Luna 



     No segundo em que pisámos a relva daquela perfeita paisagem, fomos transportados para baixo por um portal negro. O meu pai segurava-me na mão para não nos separarmos. E então, caímos. A queda não foi tão dolorosa quanto pensava que iria ser e levantei-me logo de seguida. Estávamos, no que parecia, num poço enorme sem água.
- Acho que isto está a ser demais - refilou Mercúrio. 
- Calma, vai correr tudo bem - afirmei. - Vai correr tudo bem - repeti a tentar convencer-me a mim própria.
     Admito que estava quase a acreditar nas minhas palavras mas o destino gozou com a minha cara. Homens feitos de terra e rocha cresceram diante de nós e para lá da nossa vista, apareceu um portal brilhante.
- Só mais esta - disse o meu pai, desviando-se de um ataque das criaturas. - Só mais esta e temos o nosso descanso. 
      Na mão esquerda dele formou-se uma espada prateada e reluzente de dois gumes. Mercúrio certificou-se que a avó ficava em segurança e usava fogo nos seus ataques. Já eu esquivava-me dos ataques. Eu mal conseguia sentir as minhas pernas. Não tinha forças suficientes para atacá-los com os meus poderes. Não estava a conseguir evitar todos os ataques. Parecia que os homens se dirigiam só a mim. Eu era a tal a ser abatida. E um deles conseguiu ferir-me. Um corte no braço. Depois um na coxa da perna.  
- Luna! Cuidado - o meu pai gritou enquanto lutava com um monstro. 
     Estava a render-me aos poucos. Estava farta de ter de lutar contras estas criaturas todas. Estava farta de não saber onde anda o Sol. Estava farta de não ter controle sobre as coisas. Estava farta de ser fraca. Só queria gritar mas a voz ficava presa na minha garganta. Queria chorar mas as lágrimas não escorriam. Estava a sufocar dentro de mim mesma.  
     Decidi lutar. Um último esforço. Com as últimas gotas de energia que ainda me restavam e ignorando a dor avassaladora que sentia vindo do meu braço e da perna, deixei os meus poderes fluírem dentro de mim. A sensação refrescante da água, a esperança que a luz contém e a serenidade que o ar trás floresceram dentro de mim. Uma onda de Luz, rodeada por fios densos de Água e esferas de Ar envolveram o espaço. O poder que saía dentro de mim era imenso. Os meus olhos fecharam-se e deixei-me levar pelo momento. Tudo desvaneceu-se, envolvido pelos meus elementos e só vi branco. 

- Luna? 
- Deem-lhe espaço - ouvi.
- Luna? 
     Abri os olhos lentamente para encontrar a cara de Mercúrio espetada nos meus olhos. Coloquei a mão no rosto dele de modo a afastá-lo. 
- O que aconteceu? - perguntei.
     Senti uma dor no meu braço e a minha mão automaticamente se posicionou em cima da ferida. Senti o tecido das ligaduras e depois notei na pressão de outras na perna.
- Calma, querida - disse avó, a chegar-se a mim. Sentou-se ao meu lado - Está tudo bem agora. Desmaiaste.
- Onde estamos? Onde estão aqueles homens? - Perguntei enquanto analisava o novo espaço. 
- Tu salvaste-nos - disse Mercúrio. Ele começou a mexer no meu cabelo como se fosse um cão. Sorri-lhe mas movi a cabeça para o lado aposto da mão dele. 
- E então, estamos onde? 
- Bem, como podes reparar, estamos noutro túnel - disse Mercúrio. 
- Não me digas, Mercúrio - ironizei. - Ainda temos comida? 
- Pouca, mas temos. 
- Temos de andar - disse, a tentar levantar-me, mas foi em vão. 
- Não sejas parva, Luna. Senta-te - ordenou o meu pai de forma autoritária. 
     Nunca o tinha visto assim, com um olhar tão sério, desconhecido... O seu tom de voz para mim irritou-me completamente. Levantei-me. 
- Nós temos de andar. Não é uma ferida e um desmaio que me vão parar. 
- Ela tem razão, Plutão - Mercúrio pousou uma mão no ombro dele.
     O meu pai olhou-me chateado e depois tirou os olhos azuis-acinzentados de mim. 
- Então vamos lá - e começou a andar. 
- Não lhe ligues, querida - disse a avó. 
     Nem consegui responder-lhe.

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