The Message #54



Luna 

- Bom dia dorminhoca - ouvi Sol sussurrar.
     Abri os olhos. 
- Bom dia.
- Sentes-te melhor? 
- Espera... - os meus olhos arregalaram-se. - Dormi um dia inteiro? 
     Sol assentiu como resposta. Suspirei.
- Acho que valeu a pena - admiti. - Já não me sinto tão abatida como antes. 
- Ainda bem - ele acariciou-me o ombro.
- Estou a morrer de fome.
- Eu previ que estarias - disse Sol - e fiz-te um mimo - e agarrou no tabuleiro cheio de coisas boas. 
- Fizeste alguma asneira? Deixaste o Percifal ficar sem água? - Gozei. 
 O meu Tal riu-se e deixou-se levar pela brincadeira. 
- Sim, desculpa - forçou uma cara triste. 
     Sorri e dei-lhe um beijo. 
- Obrigada. 

     Comecei a comer o meu pequeno-almoço enquanto conversava com Sol. Ele de vez em quando roubava-me a comida, outras vezes brincava com ela. E confesso que este ambiente fez-me esquecer o caos em que a nossa vida estava embebida. Mas não esquecia o momento terrível pelo qual o meu pai passou. 
     Sol deu-me um beijo na bochecha e caminhou para a porta.
- Já volto.
- Onde vais? 
- À cozinha, tratar do pequeno-almoço. Tens noção que ainda são seis da manhã, não tens? 
     Fitei-o surpreendida e procurei o relógio ao lado da mesa de cabeceira. Os ponteiros marcavam as seis horas e trinta e nove minutos. 
- Levas o tabuleiro, por favor? Eu ajudo-te mas deixa-me só vestir outra roupa. Estas calças de ganga estão a dar cabo das minhas pernas. 
- Vemos-nos lá em baixo - levou o tabuleiro consigo e saiu do quarto.





- Então qual é o plano? - Mercúrio perguntou ao engolir uma enorme colherada de cereais pela goela abaixo. 
- Estamos à mesa, não numa convenção de pré históricos - ouvi a avó murmurar-lhe.
     Mercúrio sorriu-lhe e deu-lhe um beijo no rosto. Ela quase que se afastou de propósito para o irritar.
- Eu estava a pensar em seres tu a definir o plano, avó.
- Eu?
- Sim, Mondy. Tu lutaste comigo contra Tema uma vez. Sabes os ataques dele, és uma mais valia para nós - respondeu Sol.
     A avó concordou, com um sorriso tímido.
- Vou ajudar-vos no que puder, como é óbvio. Mas duvido que os seus ataques tenham ficado os mesmos desde aquela altura.
     Sol e avó explicaram, a mim e ao Mercúrio, quais os ataques que ele mais utilizava e quais as consequências dos mesmos. Os tipos de investidas que ele faz e todo o tipo de informação necessária para podermos atacar no seu ponto fraco. Arriscava-me a dizer que a Vénus é o ponto fraco dele, mas acho que ele a perdeu naquela situação em Marte e ele sabe. Não vi nada do que aconteceu mas pelo que o Sol me contou não foi nada bonito.
- Hum, onde está a Vénus?
- Acho que ela está lá fora ou então ainda não saiu do quarto - respondeu avó. - Mas deixem-na estar. Ela precisa de algum tempo sozinha.
- Também não ia ter com ela - descansei a avó. - Não há nada que eu lhe possa dizer para mudar o que ela sente. Só acho que o Tema é um miserável em todos os sentidos.
- Mal posso esperar por pegar fogo àquela cabeça loira.
- Não gosto nada quando falas assim - disse a avó.
- Sabes que ele merece.
- Pois merece - disse Vénus ao aparecer junto à porta da cozinha.
     Ela estava com um ar derrotado, encostada à margem da porta, com o olhar distante daqui. No entanto, o seu brilho continuava. A sua figura esbelta estava coberta por um robe de seda que poderia passar por um vestido. Sempre me perguntei onde é que estes Planetas arranjam a roupa.
- Mas não é isso que vamos fazer. Ele destruiria-nos antes de sequer pensarmos no próximo ataque.
- Então temos de surpreendê-lo - disse, a fitá-la.
     Vénus fitou-me.
- Sim. Mas a grande questão aqui é como? 
- Acho que sei como - sorri.




Tema 



     Na sua Galáxia, os dias eram incertos. A luz surgia com pouca energia mas durava durante muito tempo. Talvez porque Tema tinha receio do escuro, do que se escondia nele apesar do seu interior ser preenchido com Escuridão. Ele já não se lembrava como era sem a sombra. Já não se lembrava de sentir a Luz a fluir pelas suas veias, apesar de Vénus lhe trazer essa doce sensação. Tema já não sabia ser mais nada sem ser o Tema, a Estrela Vital de Lymph. 
     Tema estava deitado na sua cama, aproveitando para reflectir sobre todos os pormenores do seu plano para a guerra que se avizinhava. A visita que recebeu minutos depois surpreendeu-o bastante. Ele virou-se para a encarar. 
- O que estás aqui a fazer? 
- A fazer-te um visita, não se nota? 
     Tema suspirou. Não estava com cabeça para aturar Silver. 
     Ela fitou-o com um olhar perturbado.
- Esperava-te mais... divertido - afirmou ela a olhar para as unhas. 
     Silver deslizou o seu corpo até à cama de Tema e lançou-lhe um olhar atrevido e curioso. 
- O que queres? 
- Essa ruivinha agarrou-te mesmo. Mas sabes? Não podes vacilar. Nós temos de ganhar esta guerra. 
     Os olhos prateados de Silver brilharam. Tema não conseguiu evitar o que dissera a seguir. 
- Tu não vais connosco para a guerra, Sil. Nem vale a pena tentares.
     Ela ergueu a sobrancelha.
- E quem me vai impedir? 
- Eu. Se queres continuar viva e a pertencer a esta galáxia, tu vais ficar quietinha.
- Vais ter de tentar melhor, Tema - Silver envolveu os seus lábios nos dele e saiu do quarto com um sorriso confiante. 
     Tema suspirou. Já estava mais que habituado às idas e voltas de Silver. Passou a mão pela nuca, indo até pelo cabelo e relaxou. Queria ter alguns momentos de paz antes de ir enfrentar uma galáxia inteira.


 



     O espaço à sua volta tornara-se branco. A sensação familiar de sair do presente voltou. Contudo, não era uma visão mas sim uma mensagem. Luna fechou os olhos e ouviu a voz firme de Tema na sua mente. 
- Quando o céu estiver negro, as nuvens sobrecarregadas e os relâmpagos se fizerem ouvir preparem-se porque começou e desta vez o fim é certo.  

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