Underneath #8

    A casa das gémeas era enorme.
    Situada um pouco longe da agitação da vila, a casa da Violet e da Melody possuía um enorme jardim à frente com algumas árvores em cada canto do terreno. Haviam pequenos gnomos de jardim - feitos pelas gémeas - com as suas respectivas gnomas e canteiros de flores junto à fachada da casa. 
     O comprido alpendre estava enfeitado por uma cascata de flores pendurada junto às suas colunas de cada lado, via-se um sofá branco no lado direito e duas camas para gatos. Uma janela do lado direito sobressaía-se por ser curva. Quando chegaram mais perto, viram que na porta da entrada haviam no vitral os símbolos do sol e da lua unidos.
- Os vossos pais fazem o quê mesmo? - Catarina questionou - A vossa casa é linda.
- Os nossos pais têm uma grande herança - começou Violet.
- A nossa mãe é publicitária e faz colunas em alguns sites de revistas para além da própria que ela tem - terminou a irmã.
- Isso é bem fixe - comentou Troy.
     Violet tirou as chaves da mala e deixou-os entrar.
     O hall era grande, dividindo-se na escadaria que dava aos quartos e à varanda, a sala de jantar e a cozinha à esquerda, a sala de estar à direita. Melody conduziu-os até à sala de estar depois de colocar a mala junto às escadas.
- Podem pôr-se confortáveis. As malas podem ficar no chão. Já vos trago o lanche.
- Obrigado, Melody - Troy sorriu-lhe.
- De...nada, Troy - murmurou. - Eu já volto - sorriu desajeitadamente e saiu.
     Melody pensou em como os olhos de Troy podiam ser uma farsa. Quando ele lhe dirigiu a palavra, ela conseguiu ver a diferença entre o Troy de agora e o de há uns dias atrás. Mas isso talvez fosse por conseguir sentir a Luz e a Escuridão mais facilmente que os outros. Ele decerto que parecia mais sombrio e que algo nele o tornava mais estranho... Parece que só resta confirmar.
- Violet, eu espero que tenhas um plano.
- Claro. Não tenho sempre?
- É bom que resulte senão estás tão morta.
     Violet sorriu meio nervosa, e pegou no tabuleiro que continha quatro sandes mistas e copos de sumo. Melody levou um pacote de batatas fritas e as gémeas deixaram-nos confortáveis. Tão confortáveis ao ponto de Saeva estar a apreciar o lanche delas como se fosse algo normal. No vazio da sua mente, Troy rezava para que elas fossem uma espécie de PowerPuff Girls e derrotassem o espírito maligno que estava em posse do seu corpo mas ele também não queria agarrar-se a uma fantasia.
     Como as gémeas previram, o plano de Violet começou a tomar curso. Antes de servir o sumo aos seus convidados, Violet colocou um pó parecido com açúcar no líquido e eles brevemente iriam adormecer. Catarina rapidamente apagou e Saeva que estava tão descontraído já tinha bebido dois copos de sumo e quando reparou no truque das gémeas já era tarde de mais. Este caiu num sono que afogou Troy com ele também.


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- Estávamos certas?
- Sim. Ainda bem que me chamaram, meninas.
- O que fazemos?
- Eu trato do assunto.
- Ele está a acordar...
     Saeva abriu os olhos e a luz era quase inexistente. Iluminadas apenas pela luz do pôr do sol, ele viu três vultos que se transformaram em caras conhecidas. As gémeas, Violet e Melody, e uma outra mulher já de idade. Quando ele se tentou mexer, Saeva viu-se com os pulsos presos, assim como os tornozelos.
- Prendi-te com sálvia. Não vais sair daí sem eu desejar - declarou a mulher.
- Violet? Melody? Elas estão tão diferentes. 
- Eu devia ter adivinhado... Planetas em forma humana. Patético - a voz de Saeva ecoou no vazio.
- Do que estás para aí a falar? 
- Já vais ver, pequeno Alexander.  
- O que tem o Troy tão de especial para quereres possuí-lo? - inquiriu Violet.
- Ora, tu mais que qualquer outra devias saber, Violet - os olhos negros dele fitaram-na.
- O que está ele a falar? - sussurrou Melody.
- Meninas, já chega - disse calmamente a mulher. - Podes deixar o corpo deste rapaz por vontade própria ou então vou ter de te tirar à força. O que preferes?
- Lenta e dolorosamente - o canto da boca subiu num sorriso sinistro.
- Como desejas.
     A mulher colocou o seu dedão direito na testa de Troy e o outro no seu peito. Da sua nuca, escondida pelo longo cabelo branco, saia uma luz azul muito brilhante e os seus olhos tinham-se tornado completamente brancos. Os olhos negros de Troy tornaram-se cada vez mais claros e normais. A mulher baixinho murmurava palavras incompreensíveis para as gémeas mas Saeva entendia-as bem. No local onde os seus dedões estavam posicionados saia uma luz branca.
- Esta não é última vez que me verás, pequeno Alexander. Eu estarei sempre a vaguear na tua sombra. 
     Troy sentiu uma luz avassaladora pelo seu corpo todo. Sentiu-se repleto de energia e vigor. A Escuridão que o assombrava estava a desaparecer. Ele lentamente conseguia sentir a sua alma a tomar posse do seu corpo. Os seus dedos eram seus de novo, os seus olhos, a sua boca, as suas pernas e mãos. Tudo a pouco e pouco voltava a si, como se nunca os tivesse deixado.
     Ofegante, Troy abriu os olhos e as gémeas voltaram a ver aquele azul esverdeado brilhante de sempre. Mas nem tudo era um mar de rosas. A mulher que ajudara Troy caiu no chão de joelhos num longo suspiro.
- Vó! - gritaram as duas.
     Ele soltou-se da sálvia que o prendia e foi ajudar a senhora. Levou-a ao colo até à sala onde a pousou no sofá.  Ela era tão levezinha e frágil que Troy não conseguia perceber como alguém poderia conter tal poder e força dentro de si. Os olhos de Troy percorreram a sala e Catarina não estava em lado nenhum.
- A Catarina? - perguntou preocupado.
- Levá-mo-la para casa. Ela não se vai lembrar de nada.
     Troy respirou fundo aliviado.
- Ela vai ficar bem? O que aconteceu?
- Temo que a minha hora tenha finalmente chegado - respondeu a senhora. A sua voz parecia tão frágil agora. - Chamem a vossa mãe, por favor, meninas.
- Vó... - Violet escondeu o rosto com a sua mão e começou a chorar.
- Oh querida - a senhora sorriu e levantou a mão para Violet a agarrar.
     Melody indicou que Troy a seguisse e foram ambos para a cozinha.
- Vou ligar à minha mãe. Se quiseres, podes ir andando. Não tens de lidar com isto.
- Mas eu tenho. Melody, a tua avó salvou-me do... - pausou a pensar no que devia dizer. Ele próprio, mesmo depois de viver o que viveu, não era capaz de acreditar. - Ela salvou-me - recompôs-se. - Eu quero estar aqui para ela. E depois gostava de ouvir uma explicação para isto tudo, se não for muito indelicado.
- Obrigada. Prometo que assim que isto passar, eu e a Vi iremos ajudar-te.
      Troy não sabia o que responder. Ele não sabia ao certo no que devia ser ajudado. Talvez estes dias tenham sido somente um sonho, uma alucinação de quando se afogou no dia da competição. Nada fazia sentido...
     Passado uns vinte minutos, a mãe das gémeas apareceu. Ela parecia muito nova mas já devia estar nos seus quarenta anos. As gémeas e a mãe pareciam-se bastante, apesar de ele agora achar que elas se calhar tinham mais a ver com o pai. Ambas tinham os olhos grandes e curiosos da mãe, o cabelo ondulado, a figura magra e uma aura mágica. Mágica?
- Oh não, avó!
- Está tudo bem, Luna - descansou-lhe ela.
- O que aconteceu? - perguntou a mãe das gémeas.
     Luna encontrou o olhar das suas filhas que consequentemente foi parar a Troy.
- Tema? - Troy não respondeu. Luna passou a mão no rosto, limpou as lágrimas e levantou-se. - Como te chamas?
- Troy. Troy Evans.
     Ela observou-o bem, começou a andar de um lado para o outro, a pensar, com a mão a apoiar a cabeça. De vez em quando fitava-o e em seguida olhava para a Violet. Luna parecia ter chegado a uma conclusão e sentou-se na poltrona ao lado de Troy. Quando ia explicar-lhe a situação, a avó das gémeas gemeu. O seu corpo tremeu e os seus olhos abriram-se revelando a Escuridão neles. Nesse preciso momento um homem alto e moreno aparece numa luz alaranjada. Troy teve de tapar os olhos caso contrário ficaria cego. No entanto, mais ninguém na sala pareceu afetado pela luz.
- Luna - disse num suspiro e abraçou-a.
- Oh, Sol - retornou o abraço.
     Ela disse Sol? Pronto, já percebi. Acorda, Troy, acorda. Mas ele não acordava. Aquilo não era um sonho. Não era uma alucinação. Era a realidade que Troy nunca pensou que existia. Os olhos de Sol fitaram-no e uma grande enxaqueca acompanhada por um zumbido atingiu-o fazendo-o desmaiar. Troy foi levado por um sonho onde se viu a si mesmo só que não era ele mesmo.
- Tema. 

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