Underneath #15

     Aos tropeções, ela corria pela rua fora. O cabelo ondulado colava-se-lhe à testa e o ar começava a faltar-lhe. Via tudo às rodas, a cabeça doía-lhe como se tivesse um ferimento provocado por um pedregulho e a rua... A rua de alguma maneira ficava cada vez mais íngreme e algo na escuridão aproximava-se dela velozmente. Ela não tinha a coragem de olhar para trás pois receava perder a pouca força que ainda tinha e cair ficando à mercê do que quer que estivesse atrás dela. 
     Não era dia nem noite, mas pairava um ambiente entre os dois onde o céu tinha pinceladas de laranja-vivo e negro de vários tons. Um nevoeiro místico sobrevoava as casas e os prédios de cada lado da rua que se sobressaíam devido às luzes laranjas elevadas ao longo do seu caminho. Tentáculos negros surgiam nas sombras que se reflectiam nas paredes e um grito ficou encurralado na sua garganta. O ar parecia tóxico, queimando-lhe os pulmões e destruindo o fluxo do seu sangue. À medida que as forças se iam esgotando o seu coração acelerava mais e com o cabelo a tapar-lhe a vista, Melody caiu. A rua feita de pedra cortou-lhe o joelho e aleijou-lhe o ombro. No entanto, a frieza do chão aliviou o seu corpo quente e suado. Ela olhou para trás e nada viu. Semicerrou os olhos e encontrou os olhos que a assombravam desde que pusera os pés no seu Planeta. O sorriso sinistro do seu rosto contorcido e modificado brilhou no meio da escuridão e ela paralisou. Aquele rosto aproximava-se lentamente e trazia com ele o nevoeiro, envolvendo-a num véu cinzento. Melody, meio sentada, começou a recuar daquele rosto, mas a força nos braços faltava-lhe e a inclinação da rua não a ajudava. O espaço à volta dela ficava cada vez mais escuro e o risco alaranjado do céu já não era visível. O rosto aproximava-se dela como um demónio a emergir do Submundo com fumo e Escuridão. A sua boca seca prendia os gritos na garganta e a sua confiança era tão frágil como um floco de gelo naquele calor. As suas mãos, bem como os seus membros, tremiam de tal forma que nem conseguia levantar a mão para tentar defender-se daquela assombração. A respiração estava acelerada e ela conseguia sentir o chão arenoso nos seus dedos descalços. Como se estivesse a viver aquele momento todo de novo. 
     O rosto abriu mais o sorriso e os olhos sinistros diziam - Desta vez não me escapas. Das sombras saíram longas mãos com ainda mais longos dedos possuidores de unhas compridas e um pouco curvilíneas, - sujas de areia e pó - que se lançaram para o rosto amedrontado de Melody. Numa tentativa de sobrevivência, ela levantou a mão a tentar prevenir o ataque e foi atacada por uma rajada de vento que movimentou o nevoeiro e então sentiu umas longas unhas... 
- Melody? Vénus chama Marte - disse Violet a estalar os dedos a um centímetro do rosto da irmã. - Estás aí? 
     Melody despertou. Tinha a cara suada colada ao braço. Olhou em volta, em modo alerta, e viu que estava na biblioteca. Violet olhava especada para ela. Sentia uma dor no lado direito do rosto e os pulsos doíam-lhe. Olhou para as mãos: estavam normais e seguravam a sua lapiseira preferida. Um sonho. Tinha tudo sido um sonho. 
- Estou aqui - acabou por dizer com o tom de voz ainda meio sumido. - O que se passa? 
- Tu adormeceste. 
- Sim, e então? 
- Tu nunca adormeces numa biblioteca. - Melody não respondeu. - Está tudo bem? O que não me estás a contar? 
- Está tudo bem - fingiu um sorriso que se desvaneceu num instante. - Não ando a ter o melhor sono. Só isso. 
- Essa explicação está muito pouco desenvolvida. Mas tudo bem. Um ponto por esforço. - Melody sorriu-lhe, um sorriso a sério, e passou a mão pelo rosto. 
- Onde íamos? 
- Revisões da arquitectura grega. Quais as principais ordens?
     Melody respondeu-lhe automaticamente. A sua cabeça parecia estar a fazer múltiplas tarefas: ouvia as perguntas da Vi e respondia-lhe sem problemas, perguntava-se de que maneira tinha dormido para lhe doer tanto o pulso e refletia sobre o sonho. A sua mente estava presa naquele sonho. Tinha que significar alguma coisa. Talvez estes sonhos eram um tipo de sintoma a seguir a um trauma. Stress. Nunca lhe tinha acontecido algo ao ponto de paralisar e os sonhos devem ser um efeito secundário. E apesar de não querer fechar os olhos nas próximas horas, o sono estava a levar a sua avante e bastava haver um momento de silêncio que sentia os seus olhos a fecharem-se e a cabeça a escurecer...


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- Tu o quê? - Sol perguntou-lhe mais chateado que surpreendido. 
     Ele encolheu os ombros.
- Não vou deixar que ele me tire o que resta da minha filha e da minha Irmã. 
- Ele é uma criança! Mercúrio, ele nem sabe quem a Vénus foi - Mercúrio desviou o olhar de Sol. Aquelas palavras... quem a Vénus foi... eram demasiado dolorosas. - Ele não vai afastar-se das gémeas. São a única ajuda que ele tem. 
- E vais deixar as tuas filhas aproximarem-se daquele assassino? Ele matou a minha Irmã, a minha Tal - as últimas palavras pareciam um suspiro. 
- Eu sei, Mercúrio. Mas não podes agir de cabeça quente. Lembras-te da última vez? Quase o ias matando à frente da Mondy. 
- Devia tê-lo feito. Elas haveriam de ainda estar aqui. 
- Tu sabes que isso não é verdade. Não para a Mondy. 
- Pelo menos iria morrer naturalmente. Da maneira certa. O corpo dela não iria ficar corroído por Escuridão. E eu estava preparado... Eu iria estar preparado para deixá-la ir. Mas não assim - disse. - O que farias se fosse a Luna? - Sol não respondeu. - Farias o mesmo. 
- Mas não são essas a circunstancias. Eu tenho de pensar no bem de todos. 
- Eles já sabem? - Mercúrio perguntou, de súbito, muito surpreendido. 
- Achas que sim? Se soubessem, o miúdo já nem estaria aqui. 
- Não duvido. Talvez devíamos deixá-los. 
-Não digas disparates. Ele acabaria por reencarnar e procurar a alma da Vénus. - Suspirou. - A Lua não devia ter unificado as almas da Vénus e do Tema. Agora é a vida da minha filha em risco - desabafou baixinho.  
- O que vamos fazer, Sol? - Mercúrio levantou-se e colocou uma mão no ombro dele. Sol virou-se para encará-lo.
- Garantir a segurança das minhas filhas. O miúdo está por conta dele. 


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     Mercúrio, para além de lhe ter deixado com um medo terrível nos ombros, deixou-lhe uma queimadura ligeira no pescoço que apenas a sua mãe pode detectar. Até o pai pensou que ela estava a imaginar, mas a verdade é que estava realmente uma marca deixada pelo bisavô das gémeas. Responder à mãe como ele a arranjou é que foi uma festa. Apesar de ela saber de quase tudo acerca da família das gémeas, Troy nunca mencionara o ódio que Mercúrio, definitiva e inegavelmente, sentia por ele. Por isso, quando chegou a altura de inventar uma desculpa esfarrapada, ele disse que simplesmente que não sabia. O pai fartava-se de dizer que Charlotte estava a fazer uma tempestade num copo de água. Depois de aplicar uma pomada no pescoço, Troy foi liberado pela mãe. 
     O final do dia acariciava o céu. Os últimos raios de Sol brilhavam no horizonte deixando o mar brilhante e sereno. Jasper seguia-o, correndo atrás da bicicleta de Troy, e competiam para ver quem era o mais rápido. Ao chegar à mercearia, Jasper rodou à volta dele pedindo festinhas que Troy deu de bom grado. Entrou na loja e foi para a secção das frutas. Pegou numa caixinha de morangos frescos e colocou alguns kiwis num saco. Seguiu para os congelados, onde tirou de um frigorífico uma embalagem de crepes chineses e, enquanto procurava por bolachas com recheio de cereja, deu de caras com dois olhos lilás a olhar indiscretamente para ele do outro lado do corredor. O homem que o fitava era bastante alto, magro e o rosto era angular com as maçãs do rosto bem definidas. Tinha os lados da cabeça rapados e o seu cabelo elevava-se numa crista roxa. Vestia um fato de riscas verticais e a camisa por baixo do blazer estava aberta até a meio, mostrando o peito e o conjunto de colares envolta do longo pescoço. O seus lábios finos curvaram-se num sorriso matreiro e foi para o corredor dos congelados. Quem seria aquele homem? E porque lhe sorrira? Perguntas a que Troy não queria ouvir a resposta. 
     Ao sair da mercearia, Troy deu de caras com o homem a dar festinhas a Jasper que ficara à espera dele. Tentando ignorá-lo, Troy subiu para a bicicleta, colocando antes as compras no cesto da bicicleta e antes de conseguir dar meia volta e ir-se embora, o homem colocou-se à frente dele. 
- Podia sair da frente, por favor? 
- Troy. Estou correcto? 
- Conheço-o? 
- Não. Mas vais gostar de saber o que tenho para te dizer... Tema.
      Troy saiu da bicicleta e deixou o tal homem guiá-lo. Seguiram os dois para o café ao lado da mercearia. Sentaram-se numa das mesas de fora. Uma das empregadas veio atendê-los, Troy nada quis e o homem pediu um batido. Reparou que a sua voz tinha um sotaque britânico discreto. 
- Presumo que estejas a achar isto tudo muito estranho, não? Eu saber de ti e tu nada sobre mim. 
- Um pouco. Mas vais-me dizer quem és sem que eu peça, não? - Troy recostou-se na cadeira. 
     Formou-se um sorriso nos lábios dele e um silêncio preencheu o espaço, simplesmente interrompido pela empregada ao trazer-lhe o batido. O homem finalmente falou. 
- Nunca conheci o Tema. Mas o que ouvi falar dele faz parecê-lo um monstro, de facto. Quero dizer, quem mata a própria Tal? - disse, a ver o liquido do batido enquanto girava o copo. - Porém, não é esse o assunto que tenho para falar contigo - os seus olhares cruzaram-se. - Vim avisar-te. 
- Avisar-me do quê? 
- Corres grande perigo. 
- Sim, e que mais?
     Ele riu-se. 
- Sabes o teu amigo Saeva? Ele não é nada comparado com a fúria de cinco Planetas. O Saeva pode tirar-te a identidade, mas continuas vivo e com a tua cabeça no pescoço. Estes cinco, querem-te mais que morto. 
- Cinco Planetas? 
- Sim. Mercúrio, Terra, Júpiter, Saturno, Neptuno. Portanto, ouve o meu conselho: volta para a tua galáxia enquanto é tempo. 
     Troy não estava a acreditar nas palavras dele. Agora tinha de fugir do Planeta onde vive? A sua mente estava uma confusão. 
- Quem és? Como sabes disto tudo? 
- Sou Urano. Sei disto porque o Tema foi uma pedra no sapato de todos nós durante anos e anos. E quando eles souberem que ele reencarnou - pausou. Urano soltou uns risinhos e aproximou-se dele apoiando-se com o antebraço na mesa. - Deixa-me dizer-te que vais precisar de muita sorte para saíres disto vivo. 
- O quê? Mas... Porque me estás a contar isto tudo? 
- Os meus Irmãos não precisam de levar sempre a sua avante ou precisam? - Afastou-se, recostando-se na cadeira. Parecia demasiado alto para ela, agora. -  Se quiseres posso contar-lhes a tua exacta morada para virem ter uma conversa especial contigo. 
- Não! Não... Obrigado por me avisares. 
- Faço notar que eles ainda não sabem da tua existência. Portanto, tens um certo avanço - disse Urano, com um certo divertimento no olhar. Como se isto fosse um jogo. 
- Vou ter isso em conta - Troy levantou-se. 
- Onde pensas que vais? - Urano levantou-se. Ajeitou o blazer e passou a mão pela crista enquanto visualizava o seu reflexo no vidro do café. - É má educação ir-se embora dum café sem pagar a conta, não achas? - ao terminar a frase Urano desapareceu numa luz roxa que apenas Troy conseguiu ver. 
- Vão-me deixar órfão e falido. Cada vez adoro mais estes Planetas - murmurou. 


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     Violet observava a irmã a dormir como pausa do quadro que estava a pintar. O pôr do sol iluminava a pele dela e clareava-lhe o cabelo. Parecia tão serena, relaxada, normal, mas ela sabia que algo se passava com Melody. Algo se passou em Marte que ela não lhe quer contar. E por muito que gostasse que ela partilhasse esse momento consigo, não iria pressioná-la. Conhecia demasiado bem a sua irmã e ela não cedia à pressão. Em relação a isso era idêntica ao pai.
     Ela saiu do quarto e viu a porta do quarto dos pais encostada. Normalmente, o seu primeiro pensamento não era espreitar mas desta vez não conseguiu evitar. Se alguém estivesse lá dentro só poderia ser a mãe. Bateu à porta gentilmente e não obteve resposta. Decidiu espreitar um pouco e viu o longo cabelo negro da mãe a cair pelo robe de seda prateada.
- Mãe?
     Luna estava de pé em frente à janela do quarto. A fraca luz preenchia o quarto com tons escuros e manchas alaranjadas. A mãe não respondeu ao toque dela e decidiu então ficar entre ela e a janela. O seu rosto estava moldado numa expressão de preocupação e os seus olhos apenas brancos. Violet sabia o que isto significava. A mãe estava a ter uma visão. O que estaria ela a ver? Será que estaria relacionado com ela e a Melody? Ou o pai... Porque caso contrário, ela não estaria com o rosto preocupado.
     Os olhos da mãe fecharam-se. A visão terminara. Violet percorreu o caminho até à porta e ficou à espera que ela recuperasse os sentidos. Ouviu-a murmurar algo. Pela abertura da porta pode ver que ela se sentara no chão com a mão na cabeça. Algo mau iria acontecer. Mas isso também não era novidade. Com o Saeva e a segunda personalidade do Troy no caminho, não era de esperar outra coisa.
- Violet? - Ouviu a mãe murmurar.
- Mãe! - Entrou no quarto. - Está tudo bem?
- Estou com uma dor de cabeça, mas já passa - sorriu.
     Violet sentou-se a seu lado e as palmas das suas mãos brilharam.
- Posso? - A mãe assentiu. Deitou a cabeça nas pernas da filha e deixou-a refrescar-lhe a mente com os poderes. - O pai vem cá hoje?
- Sim. O dia já está a terminar cá - respondeu.
- Mas o dia de alguém pode estar a começar - replicou.
- O nosso não está, e para ele é isso que importa. 

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