Underneath: Silver #21

     Troy e o grupo foram enviados para o palácio flutuante de cristal de Silver. A luz de um dos astros do planeta - Anora - brilhava intensamente sobre o céu azul.
     Anora estava tão próxima do planeta que parecia estar a uma viagem de comboio de distância. A vista era tão bela que Troy beliscou a pele para ter a certeza que estava acordado. Sentou-se num sofá que ficava direccionado para a enorme janela, apreciando a vista, e sentiu o corpo a confortar-se no macio das almofadas e no calor. Os seus olhos começaram a fechar-se muito lentamente com a imagem de Anora gravada neles. Mas algo o despertou. 
- Nem penses em adormecer, Troy Evans - disse-lhe Catarina. 
- Junta-te a mim, então - replicou. Ela nem olhou para ele. 
     Silver apareceu com uma fila de criados (eram autênticas estátuas de gelo vestidas a rigor) que carregavam bandejas repletas de comida. 
- Estou no céu, é oficial - murmurou Ryan, a babar-se. 
- Quase - disse Silver. - Só que aqui é muito melhor. Sirvam-se. 
     Eles encaminharam-se para a mesa e começaram a servir-se. Havia de tudo, desde carne a massa, peixe, saladas, frutas e sobremesas. Um aroma a comida acabada de fazer pairava no ar e isso enchia muito mais que toda a comida que tinham no prato. Até começar a comer, Troy não se tinha apercebido da fome. 
- Onde é que foste buscar isto tudo? O teu mundo é como o nosso? 
- Queres dizer, a Terra? - Troy assentiu. - Bem - Silver puxou uma cadeira e sentou-se -, o meu planeta é exactamente como eu quero que ele seja. Se eu quiser que vocês consigam respirar aqui, vocês respiram. Se eu quiser que vocês comam como comem na Terra, eu cumpro o meu desejo. Tão simples quanto isso. 
- Mas de onde vais buscar isto tudo? - Inquiriu Catarina. 
- Gostava de dizer que é pura magia, mas o Qaya produziu tudo o que vocês vêem na mesa. 
- Qaya? - perguntou Ryan. 
- O segundo Planeta da Galáxia. 
- Vocês são como os quatro elementos, não são? - perguntou Melody, a juntar as peças mais rápido que os outros, como de costume. - Tu és a água, o Qaya a terra, o Noir o fogo e o Tema o ar. Não é? 
- Muito bem... - pausou, à espera que ela revelasse o seu nome. 
- Melody. 
- Melody - Silver sorriu. - És a Marte, não és? O que faz da tua irmã a Vénus. Estou correcta? 
- Sim. 
- Alguém importa-se de me explicar o que se passa? Marte? Vénus? Qaya? - Catarina levantou-se. Todos ficaram a olhar para ela e ninguém falou. - Troy? 
- Quem é esta, Tema? - Num ápice, Silver estava ao lado de Catarina.
- Sou a Catarina - ela respondeu, sem dar hipótese a Troy de falar. 
- Claro... Nunca tiveste uma coisa por morenas, sabes? Parece que algumas coisas mudaram, apesar de tudo - disse ela a Troy sem tirar o olhar da rapariga. - Senta-te. Deixa-me contar-te, Catarina - Silver falou o nome dela com um ligeiro sotaque. Catarina sentou-se. - Os Planetas, Mercúrio, Vénus, Terra, e por aí em diante, existem em forma humana. Assim como o Sol e a Lua, ou Ceres, ou as dezenas de luas de Júpiter. O teu namorado é a reencarnação da Estrela desta Galáxia. Tema foi um homem muito... aventuroso. Talvez malvado, seja a palavra. Durante a sua longa existência ele conseguiu chatear centenas de pessoas e uma galáxia inteira, a tua galáxia. Ele procurou poder e sabia que ia encontrá-lo ao possuir o Sistema Solar e então declarou guerra contra Sol - o pai das gémeas, acredito - elas assentiram subtilmente. Catarina nem reparou. - A Lua não ia deixar o seu companheiro lutar aquela guerra sozinho e então surgiu uma nova geração de representações da Lua. A mais recente é a Luna, a mãe de Marte e Vénus. O que ninguém contava, nem mesmo o invencível Tema, era que se apaixonasse e por azar, encontrasse a sua Tal. Esta parte é onde se torna complicado, Catarina - ela pausou. - Quando tu encontras o teu Tal, não há volta a dar. Estás preso para a vida toda pelas correntes do amor. E o Tema, apesar de saber isso, tentou recuar. De certeza que ela tentou recuar. Não interessa, sinceramente. O que importa, é que para a tua amiga nascer um Planeta, a Vénus original teve de morrer. E por causa dela, a minha Estrela morreu também e dessa linda morte, surgiu o teu namorado. - Silver pausou, à espera de uma reação por parte de Catarina. No entanto, não a obteve. Revirou os olhos. - Vamos lá sumariar isto. O Troy é o Tema reencarnado. A Melody e a Violet são Marte e Vénus. Os pais delas são o Sol e a Lua. O resto é um romance à Shakespeare. 
- Eu também fiquei um pouco aparvalhado, Cat - disse Ryan. 
- Aparvalhada? Achas que eu estou aparvalhada?
     Ela levantou-se com as mãos na cabeça. Apoiou as mãos no parapeito de mármore de uma janela e fitou a paisagem à sua frente. Parecia um quadro surrealista. Anora brilhava intensamente. Era tão grande, tão magnífica que nem parecia real. E o Troy... Como é que os Planetas podiam ser humanos? Como é que as gémeas eram Planetas? Como é que ela estava noutra galáxia? E o Troy, como é que ele era uma estrela?
     Troy colocou-se ao lado dela. Não sabia como havia de o encarar. Sentia-se confusa, quem não se sentiria? Mas também estava perturbada por ele lhe ter ocultado isto tudo. Se ela não tivesse aparecido na casa das gémeas, ela não saberia o paradeiro dele por sabe-se lá quanto tempo. Troy passou os dedos pelo braço dela. Catarina arrepiou-se com o toque mas não o fitou.
- Eu sei que é muito para absorver. Mas, admite, ter um namorado com poderes é bem espectacular - Catarina fitou-o finalmente.
- Não me contaste. Toda a gente sabia menos eu. Porquê?
- Eu queria proteger-te.
- Proteger-me do quê? Daquela criatura do jardim?
- Não. Algo maior - Troy aproximou-se mais dela e sussurrou. - O que a Silver não te contou é que o Tema aliou-se com a Escuridão e agora a Escuridão está atrás de mim.
- Tipo, a Escuridão, com E maiúsculo? - Troy assentiu. - Claro que tinha de haver um vilão nesta história. O que vais fazer?
- Não sei.
- Estás a brincar?
- Não. Não sei mesmo o que vou fazer - admitiu. - Mas duas cabeças pensam melhor que uma - sorriu.  - Desculpa não ter-te contado. Não queria que ele te magoasse ou tocasse outra vez.
- Outra vez? Troy!
- A Escuridão já me possuiu uma vez - Catarina ficou boquiaberta. - Mas estou bem, a avó, ou melhor, a bisavó das gémeas conseguiu expulsá-lo do meu corpo.
- Ela está bem? Expulsar a Escuridão não deve ter sido pêra doce. Principalmente com a idade dela.
- Pois. Ela morreu.
- Oh... Lamento muito - abraçou-o. - Estás bem? Elas estão bem? Estás anti-escuridão?
- Elas estão a aguentar-se. Eu estou bem agora - abraçou-a. - E nós?
- Estamos bem - fitou-o. - Não me escondas mais nada. Eu consigo cuidar de mim. Entendidos?
- Muito - assentiu e sorriu. Troy inclinou-se e beijou-a.
- Pombinhos! - chamou Ryan. - A comida vai arrefecer.
- Tenho a certeza que também já não há comida para comer - observou Troy. Catarina riu-se.


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     O dia em Srebaryan passava ligeiramente mais rápido que na Terra. Um dia inteiro tinha somente 21 horas terrestres, e portanto, quando Troy e os amigos chegaram ao Planeta, a luz já estava quase a declarar descanso. Não demorou muito até uma vontade imensa de dormir atingir o grupo e por sua vez, Silver já tinha os quartos preparados quando Ryan soltou o primeiro bocejo de todos. Apesar de ela não ter problemas com o casal, os quartos foram preparados para rapazes e raparigas separadamente. Silver encaminhou-os por um corredor que dava para os mesmos. As portas era imensamente altas e tinham detalhes esculpidos. Os rapazes ficaram com um quarto maioritariamente decorado de azul e cinzento, enquanto que as raparigas tinham um esquema de cores mais claro, combinando cores como branco com prateado, lilás e pêssego. 
- Fiquem à vontade. Coloquei roupas de dormir no fundo de cada cama. As casas de banho são ao fundo do corredor e lá encontrarão tudo o que necessitam. Se precisarem de mim, estarei no jardim. Descansem que amanhã temos um longo dia pela frente.   

     Troy adormeceu assim que caiu na cama. Tinha planeado ir tomar banho e trocar de roupa mas ao deitar-se, caiu completamente no sono. Estava tão cansado que a sua cabeça desligou-se completamente de tudo. Porém, ele acordou num grande sobressalto passado umas horas. Ryan dormia que nem um bebé na cama dele e a luz de um outro astro iluminava o quarto pela janela alta. Troy pegou nas roupas e dirigiu-se para a casa de banho. A casa de banho era gigantesca, tendo o que parecia, uma piscina no meio, vários compartimentos para banhos individuais e outro espaço aberto com chuveiro livre. A água que saia da fonte da piscina era azul e quando Troy lhe tocou, ficou com um tom mais claro parecendo-se com turquesa. Ele tomou um banho e vestiu as vestes que Silver lhe tinha dado - uns calções e t-shirt a condizer em tons de azul-esverdeado escuro com detalhes nas aberturas da roupa. Passou a mão pelo cabelo loiro molhado de modo ficar do lado certo. Voltou para o quarto e encontrou Silver a observar a paisagem pela janela alta e larga. Ela virou-se assim que se deu conta dele. Os seus olhos pareciam iluminar o quarto. Troy foi até ela e sentou-se no parapeito da janela. Ela sentou-se também. 
- Passa-se alguma coisa? 
- Só quero conversar. 
- Está bem, mas não queres falar noutro sitio? O Ryan pode ressonar - sorriu. 
- É incrível como és idêntico a ele. Excepto a pele mais morena - pensou ela alto. - Não vai ser uma conversa longa. Precisas de descansar. 
- Então, sobre o que queres falar? 
- Sobre ti. O Tema tem-te contactado? 
- Se sonhos e lembranças contarem, sim, ele tem falado comigo. 
- E que memórias são essas? 
- Não sei. Penso que é sobre ele e a Tal. A Vénus, não era? 
- Não sabes mais nada? 
- Não. Ele nunca me mostrou lembranças de ti, ou dos outros Planetas. Sei quem é o Noir. Mas - pausou.
- O que foi? 
- Para eu conseguir vir para aqui o Tema teve de me possuir. Houve este momento, quando estava a acabar com a criatura com que estávamos a lutar, em que senti-me revigorado o suficiente para continuar a lutar. E depois não me lembro de nada. A Catarina disse-me que fiquei com os olhos totalmente brancos. 
- Ótimo - Silver sorriu. - Isso quer dizer que ele ainda é muito ligado a ti. Provavelmente vai ser sempre.
- Isso é bom? 
- Claro! - ela sorriu. - Vai descansar. Amanhã quero falar contigo sobre coisas mais sérias. Talvez treinar - ela levantou-se. 
     Silver já estava quase a meio do quarto quando Troy falou. 
- Ouve, Silver, eu não posso ficar aqui muito tempo. 
- Porque não? - virou-se para encará-lo. 
- Tenho os meus pais. A Catarina e o Ryan foram apanhados no meio disto tudo. E as gémeas... Os pais delas vão ficar tão furiosos. E o Mercúrio... - colocou a mão na testa. Troy apercebeu-se que ia encontrar muita gente atrás dele quando voltasse à Terra. Já conseguia sentir o calor do Mercúrio a percorrer-lhe o corpo e a queimar muito mais que o seu pescoço. - Oh, eles vão queimar-me vivo. Estou tão, tão morto. 
- Troy - chamou Silver. Ele fitou-a apavorado. - Está tudo bem. Não vais morrer. O que eles podem fazer contra uma Estrela? 
- O Sol é uma Estrela e um pai zangado. 
     Silver aproximou-se dele de novo e baixou-se um pouco. Ela viu a confusão nos olhos dele. Colocou uma mão por baixo do queixo dele e decidiu afastar aquele pensamento da sua mente da melhor maneira que sabia: selando os lábios dele com os dela. Troy arregalou os olhos e sentiu o rosto ficar totalmente vermelho. 
- Dorme bem, Tema - sussurrou perto dos lábios dele e saiu do quarto. 
     Troy ficou, por instantes, imóvel. Silver deixou-o sem palavras e completamente baralhado. Por fim, ele processou o beijo dela e as suas palavras. 
- "Dorme bem, Tema"? Dorme bem, Tema! Beija-me e diz-me para dormir bem - Encaminhou-se para a cama e deitou-se. O seu rosto ainda estava quente - No que é que me fui meter... 


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     Catarina não conseguia dormir. Estava às voltas na cama a pensar. Ainda não se tinha conformado com a existência de tudo à sua volta. Como é que tudo podia ser real? 
- Catarina? - ouviu Melody sussurrar. - Estás acordada? 
- Estou - virou-se para o lado esquerdo. Catarina tinha a cama mais afastada da janela. 
- Não consegues dormir? - Ela abanou a cabeça. - Eu também não. Nem acredito que estamos noutra galáxia. 
- Não acredito que tu e a tua irmã são Planetas e os vossos pais são o Sol e a Lua. 
- Bem, a nossa mãe não é a Lua mas é justo. Queres falar sobre isso? 
- O que vos atacou no jardim?  
- O meu maior medo. Literalmente, o meu maior medo - disse ela. Ficou um silêncio no quarto. 
- Conseguiste derrotá-lo? - Melody abanou a cabeça. - Se é o teu maior medo, ele não vai ser destruído pelo Troy, certo? 
- Certo. 
- Então, porque não o destróis de uma vez por todas? 
- Porque é o meu maior medo. Não consigo enfrentá-lo. 
- Ao pensares assim, de certeza que não. Se és realmente um Planeta e filha do Sol e da Lua, não há nada que não consigas enfrentar. 
     Melody sorriu e elas ficaram a conversar até Anora voltar a brilhar no céu limpo de Srebaryan.

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