Underneath: Silver #23

     Troy, durante o resto da tarde, focou-se em treinar o Ar e em domá-lo. Ryan e Catarina trabalharam com armas como adagas, facas, arco e flecha, e havia uma espada que apenas Ryan atreveu-se em mexer. As gémeas praticaram alguns ataques com os poderes, mas elas já os conheciam a todos. Não havia nada de novo em que trabalhar. Portanto, elas esgueiraram-se para a zona de treino de Ryan e Catarina. Ele estava a escolher uma adaga para acertar num alvo mais distante quando Melody se aproximou da mesa com as armas. 
- Precisas de ajuda? 
- Estou bem - disse, sem fitá-lo.
     Ela ia escolher uma adaga fina que servia somente para lutas corpo a corpo. Se ela quisesse uma para atirar, aquela não era a melhor opção. 
- Se queres atirar aos alvos, essa não é a melhor escolha - explicou. Melody nada lhe disse. Ryan escolheu uma faca mais grossa de dois gumes. A pega tinha relevos gravados. - Esta, toma - e estendeu-lha. 
- Porque estás a ser assim comigo? 
- Assim como? - perguntou, surpreendido. 
- Simpático - fitou-o e cruzou os braços. A altura dele obrigava-a a olhar ligeiramente para cima. 
- Não queres a minha ajuda? Se quiseres posso voltar a ser um idiota para ti outra vez. 
- Pelo menos admites - pegou na arma e avançou para um alvo. 
- Eu tive as minhas razões - disse-lhe ao ouvido, mas quando Melody se virou, ele não estava por perto.


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- Silver, isto não vai resultar - disse Troy. 
- Claro que vai! 
     Violet segurava no arco com uma flecha direccionada à Estrela. 
- Só tens de mudar a direcção da seta e certificares-te que ninguém morre no processo - acrescentou o Planeta. 
- Estou mais descansado agora, obrigado. 
- Tu consegues, Evans. Mas espera até eu estar num local seguro - gozou Ryan. 
- Não sei se quero fazer isto - falou Violet. 
- Não te vai custar nada - Silver aproximou-se dela. - Confia no Tema, Vénus - murmurou. Os seus olhos pareciam conter uma tempestade.
     Violet não gostou do que ela disse mas ignorou.
- Tudo bem.
     Melody, Catarina e Ryan estavam sentados no banco de pedra. Ryan estava super entusiasmado que nem pensava nas consequências. Já as raparigas - Catarina principalmente - temiam que algo corresse mal. Violet tinha os nervos à flor da pele. Não queria lançar mas Silver não lhe dava outra hipótese. Troy tinha os braços estendidos ao nível do rosto e não transparecia o quão nervoso realmente estava. Treinou umas boas horas, mas não estava seguro dos seus poderes. Silver, por outro lado, estava mais que convencida.
- Vamos! Ao um - disse Silver.
     Violet recolocou a seta no arco, ajustou a posição das ancas e dos pés e fez pontaria, agarrando no fio com dois dedos.
- Três... Dois...
     Ela fechou os olhos e respirou fundo.
- Um!
     Violet abriu-os e a flecha percorreu o seu caminho até à Estrela.
     Troy viu a flecha a ir na sua direcção com tanta velocidade que num momento tudo ficou em câmara lenta. Já não sentia os braços bambos e os pensamentos tinham acalmado muito. Fechou os olhos e estendeu mais os braços. Concentrou-se no que aprendeu: o Ar é o elemento da liberdade. Portanto, ele libertou-se do medo e deixou o Ar encher aquele receio até desaparecer por completo. Por fim, quando finalmente abriu os olhos, uma onda de ar saiu-lhe das palmas das mãos e a seta foi parar ao tecto, caindo no chão. A seta já não parecia assim tão assustadora quando aterrou junto aos seus pés.
- Muito bem - disse Silver. - Tens de começar a confiar no que te digo e em ti.
     Violet apertou o arco e sorriu ao ver a seta no chão, aos pés de Troy. Ryan, Catarina e Melody aproximaram-se da Estrela.
- Conseguiste, Evans - disse Ryan, a por uma mão no ombro dele.
     O olhar de Troy encontrou o de Violet. Ela sorriu e o olhar dela apanhou-o como uma armadilha. Violet foi de encontro a ele.
- Quase me mataste, Violet - sorriu.
- Ainda bem que não o fiz.
- Troy - chamou Catarina.
     Troy fitou-a, tirando a sua atenção de Violet.
- Vamos lanchar? - perguntou ela.
- Vamos - respondeu.
         Troy pegou num prato e serviu-se das várias coisas à sua disposição. Enquanto pegava numa sandes de frango, pelo canto do olho, viu Violet esgueirar-se para o pátio. Julgou que Melody ia atrás dela mas a gémea permaneceu na sala. Troy pousou o prato na mesa e foi atrás dela. Violet estava sentada na sombra do carvalho no jardim.
- Isto é um bom esconderijo - disse ele, agarrando-se ao tronco. Violet saltou de surpresa. Ele sorriu. - Desculpa. Não queria assustar-te.
- Não faz mal - abanou a cabeça.
     Ele sentou-se ao lado dela. Violet estendeu-lhe o prato e ele tirou uma bolacha.
- Está tudo bem contigo?
- Sim - ela não mentiu, mas não tinha dito completamente a verdade -, e contigo, Estrela Vital?
     Troy sorriu. Passou a mão pela nuca.
- Isso é um grande nome. Ainda não sei bem o que significa - admitiu.
- Vais descobrir ou morrer a tentar - disse ela, a fitar Anora, com um tom dramático.
- Isso foi... Terrível - eles riram-se. Violet fitou-o. - Posso? - e apontou para as bolachas.
- São boas não são?
- As melhores! Onde será que ela foi buscar isto?
- Prefiro não saber, sinceramente - sorriu.
     Troy encostou-se ao tronco da árvore. Na galáxia dele não havia nada que se comparasse com os raios quentes do Sol, mas Anora iluminava Sebraryan com tanta intensidade que aquecia. Violet olhava para o astro e a sua luz incidia mesmo no seu rosto, iluminando o rosto levemente bronzeado, os olhos cor de âmbar e céu e o cabelo agora com reflexos avermelhados. Ela parecia uma imagem saída do quadro com aquela paisagem mágica como fundo. Ele foi, de súbito, invadido por sentimentos que o assolaram quando a conheceu. A atracção, a intriga, a curiosidade. Troy apercebeu-se que não conhecia assim tão bem a pessoa ao seu lado e queria, decididamente, saber mais.
- Treinas comigo amanhã? - ele perguntou.
- Não sei se devia.
- Porque não?
- A Silver quer-te só para ela e a Ca...
- Disparates - disse, interrompendo-a. - Treinas comigo. Combinado?
      Troy colocou um sorriso que a obrigou a aceitar a proposta dele. Ela aceitou a proposta e disse a si mesma que era só um treino. Um treino tão inofensivo quanto o tempo que eles acabaram por passar debaixo daquele carvalho a comer tudo o que havia no prato dela. Como amigos. Simplesmente amigos. Violet e Troy não estavam certos do que se passava entre eles. Sabiam que eram amigos. Sabiam que se apoiavam mutuamente e que iriam sempre proteger-se um ao outro mesmo conhecendo-se há tão pouco tempo. O porquê de terem sempre a retaguarda um do outro ainda era um mistério para um deles, sendo que um se limitava a perguntar se aquilo era real ou não. E se não fosse, sempre era uma calorosa ilusão. 


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     Assim que a noite se envolveu com o céu, Melody teve o mesmo sonho que a perseguia. A criatura rastejava atrás dela numa rua pintada de laranja e medo, terror e vermelho. As garras do monstro subiram e no instante que ele estava prestes a pregá-las no seu rosto, ela acordou sobressaltada. Aquilo iria persegui-la para sempre se não voltasse para o seu planeta. Não queria voltar. Não sabia como iria derrotar este medo. Ela já viu como isto afecta todos à sua volta e não podia continuar a ignorar. Ela levantou-se e acordou a irmã. As duas foram para a casa de banho.
- Vi... Acho que chamei a criatura - disse Melody, a abraçar-se a si própria.
- Como assim?
- Sonhei com ela. E quando sonho, ela volta - respondeu, a olhar envolta.
- Está tudo bem - Violet abraçou a irmã. - Não há razão para teres medo. Estamos todos aqui contigo.
- Tens a certeza?
- Absoluta - pegou-lhe na mão. - Vamos para o quarto. A minha cama tem espaço suficiente para as duas.
- Da maneira que tu dormes devo acabar no chão, independentemente do tamanho da cama.
- Verdade. Mas sempre é mais quentinho - observou.

     Por mais fácil que fosse, ela não conseguia agitar a sensação de alarme que tinha. Ela não conseguia ignorar a sensação. Parecia que subia do seu estômago até à garganta e ficava lá presa causando uma sensação terrível de medo. Violet estava ao seu lado e embora a sua presença lhe causasse uma certa calma, Melody não conseguia dar-se ao luxo de respirar normalmente e simplesmente dormir. Ela saiu do quarto de fininho e percorreu o corredor, abrindo portas e fechando-as. Acabou por ir ao pátio onde ficou de frente para a mesa de armas e pegou na faca que Ryan lhe tinha indicado. Era tão bonita que parecia absurdo ter sido feita para lutar e matar até. Ela agarrou na arma e foi para a zona de alvos montados pela Silver. Posicionou os pés e visualizou a cara do monstro que a assombrava há demasiado tempo. Era agora. O seu medo não ia ser mais um obstáculo para ninguém, inclusive para ela. Melody era melhor que isso. Eu sou melhor que isso. Eu consigo. Porque não haveria de conseguir? Tem os meios para tal, só tinha de atingir o fim. 
     Ela agarrou na faca com o polegar bem assente na pega decorada e ao ver os olhos vermelhos da criatura brilhar naquele alvo, lançou a faca que acertou em cheio no meio daqueles olhos. A criatura explodiu e um zumbido impossível de ignorar rodeou o palácio inteiro. 
     O ar estava impregnado com nevoeiro, Escuridão e fragmentos vermelhos. Melody tinha caído no chão e levantou-se logo a seguir. Não conseguia ver nada. O ar era só fumo e pigmentos vermelhos incandescentes. Ela sentiu os braços de alguém à sua volta. Violet. Viu Troy e Ryan perto da entrada para o pátio com Catarina logo atrás. A Estrela começou a fazer gestos com os braços e as mãos como uma dança e surgiu um vento que limpou o espaço à volta deles. Silver materializou-se perto do carvalho e os olhos dela arregalaram-se. Melody olhava envolta à procura e ao ver um brilho vermelho reflectir-se no gume da faca, ela soube que a criatura não tinha ido. 
- Troy! - gritou Melody. 
     O monstro surgiu do nada com os tentáculos em movimento e Violet abriu a palma da mão donde saiu uma luz tão forte que nem Silver conseguiu manter os olhos abertos. Melody não podia acreditar que estava tudo a acontecer de novo. Como podia estar a acontecer tudo de novo? Não era possível... Não podia ser... 
      Troy correu para as gémeas e os cinco ficara reunidos de novo. Silver ao abrir os olhos viu uma luz circular entre o grupo e ela soube que eles se iam embora. 
- Tema! Não te atrevas - gritou. 
      Silver começou a correr para eles mas já não havia maneira de o impedir. A luz ficou mais forte e houve a sensação de flutuar. Os cinco começaram a subir e a Estrela impulsionou a luz dando mais energia e eles desapareceram de Sebraryan. 


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     Independentemente de onde eles tenham ido parar, o monstro seguiu-os. O monstro seguiu Melody. Apesar de todas as tentativas, Troy não conseguia abatê-lo. Melody ordenou que todos fossem para trás dela e com a ajuda da irmã criou um vendaval que engoliu a criatura. Ela iluminou os ventos e a criatura foi-se misturando com o Ar e a Luz, desaparecendo apenas por algum tempo. 
- Melody, o que aconteceu para isto te seguir? - perguntou Troy. 
- Conto-te mais tarde, pode ser? Temos de descobrir onde estamos. 
- Acho que é um pouco óbvio - comentou Troy.
- Ai sim? Então, diz lá, onde estamos, génio? 
- Em Qaya - respondeu. 

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