Underneath: Qaya #25

- Troy - ouviu sussurrar. - Troy, acorda. 
     Troy Evans abriu os olhos e viu o rosto de Violet diante de si. Parecia preocupada. 
- O que se passa? Já amanheceu?
- Ainda é cedo, mas já há luz. Mas não foi por isso que te acordei. Estavas a ter um pesadelo.
     Troy suspirou.
     Tantos dias sem um único pesadelo e assim que chegou a Qaya era a primeira coisa que recebia. Saeva invadiu-lhe a cabeça durante o sono e agora perseguia-o em cada sombra existente. Já não se sentia tão seguro ou capaz de proteger seja quem fosse. Não se sentia poderoso nem Estrela Vital de coisa nenhuma. Foi como se tivessem ligado o interruptor para a realidade e ele se desse conta que ainda não sabe nada sobre Tema e o seus poderes. O pior de tudo era que ainda tinha Saeva atrás dele - e os planetas da Via Láctea - e o tempo estava a passar. Seja aqui ou na Terra, a Escuridão vai assombrá-lo até ter o que quer e Troy não estava certo se conseguiria encontrar uma saída desta praga. 
- Acordei-te? Desculpa... 
- Não. Acordei um pouco antes de te ver a dançar nos lençóis - sorriu. 
     Ele sorriu. Sentou-se e tirou o cabelo da testa molhada. Precisava dum banho urgentemente.
- Também preciso dum banho - murmurou Violet, como se tivesse lido os seus pensamentos. 
- Faz tanto calor aqui - queixou-se. - Como é que é possível? 
- Pergunta à Melody. De certeza que ela vai saber uma teoria dum húngaro qualquer sobre isso - eles soltaram umas gargalhadas. - Shh - fez sinal com o dedo. -  Eles ainda estão a dormir. 
     Troy vestiu a camisola e levantou-se. 
- Que tal irmos tratar daquele treino que me prometeste? 
- Não te prometi nada, Troy - respondeu ela.
- Ah sim? Está bem, então - cruzou os braços. 
    Violet estendeu-lhe as mãos e Troy levantou-a. 
- Mas, já que fazes tanta questão - disse muito seriamente. Se não fosse o sorriso tímido dela passado uns segundos ele pensava que Violet estava mesmo a falar a sério. 
     Eles foram para o pátio nas traseiras da casa, ladeado por muros altos de pedra. Plantas infiltravam-se por entre as pedras e em certos espaços do muro havia uma forte concentração de folhas e vegetação. Troy não conseguiu detectar nenhum tipo de planta que lhe fosse familiar. 
- Consegues fazer uma simples brisa? 
- Claro. Estás a falar com o Mestre do Ar.
- Quero ver isso - disse ela, cruzando os braços, com o olhar pouco convencido e o sorriso a incentivá-lo. 
     Troy posicionou os braços e as mãos como se fosse correr. Fechou os olhos por dois segundos e desejou que o Ar fluísse das suas mãos numa leve brisa fresca. Posto isto, o Ar correu pelos cabelos longos de Violet e suavizou a sua expressão. Violet fechou os olhos por momentos enquanto saboreava o ar fresco. 
- Que tal? 
- Nada mal - admitiu. - Mas consegues fazer isto? - Ela abriu as palmas das mãos na direção dele e uma ventania rodeou Troy que o fez levantar os pés do chão. Violet deixou-o a flutuar uns momentos. 
- Que tal? - perguntou ela, com um sorriso no rosto. 
- Nada mal -  Violet pousou-o no chão. - Agora, vais ensinar-me uns truques? 
- Sim - ela pôs-se ao lado dele. - Coloca as mãos assim - ela demonstrou o gesto e Troy imitou-a. - Agora ataca aquele pote ali ao fundo. 
- Está bem. Deve ser fácil. - Troy reposicionou as mãos e o ar saiu-lhe naturalmente das mãos só que não acertou no alvo pretendido. O seu ataque acertou num monte de folhas do muro, balançando-as. 
- Tens de te concentrar. Olha bem o teu alvo. 
     Ele fitou o pote e visualizou-o a partir-se com a rajada de vento que pretendia fazer. Direccionou as mãos ao alvo e tornou a atacar. O seu elemento saiu-lhe das palmas e atingiu o pote fazendo-o tombar e cair, partindo-o aos bocados. 
- Levanta os bocados - disse-lhe Violet. Troy fitou-a. - O quê? Não consegues? 
- Veremos - respondeu. Troy canalizou o ar para os bocados e eles levantaram-se ao nível dos seus olhos. Ele concentrou-se mais um pouco e juntou-os de novo, fazendo os cacos parecerem um todo outra vez. 
- Estou impressionada, Troy Estrela Vital Evans - disse. 
- Eu disse-te. Mestre do Ar. 
     Troy impulsionou os braços e Violet levantou os pés do chão. 
- Troy! - exclamou, espantada por vê-lo a fazer tal perícia e pelo atrevimento dele. Ela, no entanto, não vacilou por muito e levantou-o a ele. Agora ambos pairavam no ar, com o cabelo a ondular na brisa um do outro. 
- Larga-me! - disse ela. - Põe-me no chão. 
- Violet! Descontrai. Estás literalmente a voar. 
- Estou parada no ar - corrigiu-o. O seu rosto ficou vermelho. Troy não sabia ao certo se era de raiva ou embaraço.
- Está bem, está bem. Eu largo se tu largares - ela assentiu. - Ao três. Um... dois... três...
     O Ar rodopiou entre os dois, entrelaçando-se no poder um do outro e uniu-os quando aterraram. Violet e Troy estavam a dois centímetros de distância um do outro e ambos ficaram presos pelo olhar. Troy não conseguia tirar os seus olhos dos dela. Algo uniu-o a ela tão subtilmente que ele só agora tinha percebido. Quando a viu pela primeira vez sentira-o e agora passava-se o mesmo. Eram aqueles olhos, únicos e mágicos, que o prendiam e o faziam sentir-se tão normal quanto era há três semanas atrás. Violet viu-se encurralada no azul-esverdeado dos olhos dele mas logo lembrou-se de Catarina e do que Melody lhe tinha dito uma vez: Ele morreria por ela. Ela não queria atrapalhar, não queria causar obstáculos ou problemas. Violet queria manter-se amiga dele, só e apenas. Mas quando olhava para os olhos dele, não sabia se era isso que desejava realmente, o que a frustrava ainda mais.
- Troy - murmurou ela, desviando o olhar para as mãos. 
- O que se passa? - perguntou, quase num sussurro. 
- Não devíamos estar a fazer isto... Estes treinos... - ela colocou o cabelo atrás da orelha e deixou de o encarar. 
     As palavras dela fizeram-no acordar. 
- Porquê? - Violet virou-se e começou a andar para dentro. - Violet, espera - pegou-lhe o braço. 
     Ela ficou de frente para ele mas não o encarou e isso magoou-o um pouco. 
- Olha para mim - pediu. - O que se passa? 
- Eu... Troy... - parecia que tinha as palavras presas na garganta. 
- Violet - ouviu a irmã chamar. Melody apareceu na porta. - Troy. Precisamos de ir. Acho que esta casa não está abandonada, afinal de contas. 


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     Mercúrio sentia-se acabado e apesar de ter o corpo todo maltratado, levantou-se com muita dificuldade. Apoiou-se no sofá e cambaleou até à parede mais próxima. Abriu as portas da sala e viu uma luz esverdeada brilhar na cozinha. Ele sabia de quem se tratava e suspirou. Sentiu uma dor nas costelas e pousou a mão direita no peito. Deambulou até à ombreira da porta da cozinha. Luna foi a primeira a vê-lo. 
- Mercúrio - exclamou, com os olhos arregalados. - O que estás a fazer de pé? - pegou-o pelo peito e sentou-o numa cadeira. - Estás doido? 
- O que é que ela está aqui a fazer? - perguntou, com os olhos fechados. Sentiu uma grande dor ao sentar-se. 
- Estou aqui para curar a tua linda casmurrice. 
     Os olhos dele encontraram os dela. Jade possuía os olhos tão verdes que parecia uma autêntica floresta naquela íris. A pele escura pintava as feições fortes dela e realçava a cor dos seus olhos. O cabelo estava preso num rabo de cavalo justo e alto, onde caracóis saíam e molduravam o seu rosto. Os lábios grossos não mostravam um sorriso. 
- Podes ir embora. Não preciso de ti - disse ele.
- Mercúrio, isto não é uma discussão. Ela fica - Sol replicou.
- Não queres voltar a ter a tua cara laroca? Se não te tratares vais ficar com mais rugas que possas contar. 
- Prefiro as minhas rugas às tuas ervas. Porque a trouxeste? - perguntou a Luna. 
- Ela é a única que tem o poder para te curar. Eu não sei mais do que uns simples truques curandeiros. Não é suficiente. Podes morrer por causa disto. 
- Não vou deixá-la tocar-me. 
- Acredita, não é um prazer para mim também. 
- Jade - disse Sol. 
- O que foi? Não posso dizer o que penso, agora? Se quiserem vou-me embora. 
- Não - respondeu-lhe Luna. Virou-se para Mercúrio. - Faz isto por mim, por favor. Não te quero ver mais nesse estado. 
- Está bem - Mercúrio cedeu ao ver o seu olhar preocupado. 
     Eles foram para a sala e Mercúrio deitou-se no sofá. Tinha ligaduras à volta do torso e no braço direito. Tinha o rosto marcado com hematomas e arranhões. No braço esquerdo tinha um hematoma e alguns arranhões também. No braço direito tinha um corte mais profundo como no torso. Os seus músculos estavam doridos e só mexer-se um milímetro causava-lhe imensa dor. 
- Pelo menos aprendeste a tua lição. 
- Cura-me de boca fechada, se fazes o favor - replicou. 
- Não estás nas condições para fazer pedidos, pinga-amor. 
     Jade posicionou as mãos por cima do torso dele e uma camada fresca de magia de um tom muito claro de verde revitalizou de imediato o corpo de Mercúrio. Ele fez uma expressão de alívio instantâneo. Jade sorriu. 
- Ainda sou indesejada, Mercúrio? Posso-me ir embora.  
- Não - disse muito rapidamente. Aclarou a garganta. - Continua. 

     Jade e o casal foram para o alpendre. 
- Obrigada, Terra, e desculpa pelo comportamento dele. 
- Oh, não faz mal, Luna. Já sabia o que me esperava quando me chamaste. E foi muito gratificante ver o rosto dele com aquela velhice a atacá-lo. Devia ter tirado uma fotografia. 
- Não te preocupes. Eu já tratei do assunto - disse Sol. 
     Ela sorriu por uns instantes. O seu semblante ficou carregado de repente. 
- Se houver alguma coisa em que vos possa ajudar, por favor, digam. Nunca devia ter ignorado o segundo ataque do Tema. Aliás, nenhum dos Planetas devia ter deixado esse cargo nos vossos ombros apenas. 
- Pensar nisso de nada adianta. Só temos de arranjar maneira de saber se elas estão bem ou de como atravessar a orla de Lymph. 
- Eu trato disso. Vou procurar nos arquivos das minhas antecessoras. Se encontrar algo, serão as primeiras pessoas a quem dirijo a palavra. 
- Obrigado, Jade - Sol pousou a mão no ombro dela. 
- Agora tenho de ir. 
- Obrigada mais uma vez. Vejo-te em breve - elas abraçaram-se. 
- Toma um chá com as ervas que te trouxe. Vai saber-te lindamente - beijou-lhe a bochecha. - Até mais tarde - disse ela e desapareceu numa luz verde. 


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- O que te faz pensar que isto não está abandonado? 
- Enquanto vocês estavam a fazer não sei o quê, o Ryan acordou e encontrou um esconderijo na parede e duas facas coladas na parte de baixo da mesa. Esta casa deve ser um refúgio para um grupo qualquer. 
- Isso explica os cobertores - deduziu Violet. 
- Acho que consegui! - gritou Ryan, dum quarto à esquerda da sala.  
     Os três seguiram para o quarto e Ryan estava com o rosto colado à parede com o braço esquerdo a vasculhar um buraco na parede. Tirou a mão de lá e mostrou o saco escondido. Abriram-no e lá estava moedas douradas, fracos pequenos com líquidos de várias cores e um anel. 
- Nós devíamos ir. Agora - disse Melody. 
- Concordo - replicou a irmã. 
- Ryan, guarda isso e deixa tudo como estava. Troy, vai acordar a Catarina. Vi, vamos arrumar os cobertores. Quanto mais cedo nos formos embora, melhor é.
     Troy despachou-se para a sala.
- Catarina, acorda, temos de ir - disse, a abaná-la.
- Deixa-me - resmungou.
- Isto é sério. Temos de ir. Levanta-te - pediu outra vez, já a puxar-lhe o cobertor.
     Ela sentou-se e passou a mão pela cara.
- O que se passa, raio de sol? - inquiriu com sarcasmo na sua voz.
- A casa não está abandonada. Precisamos de ir. Anda, vá - esticou-lhe a mão que ela agarrou.

     O grupo saiu da casa a caminho de Phjalk Libertyr. Todos petiscaram na comida que ainda havia mas todos concordaram que deviam guardar para o almoço. Água em Qaya existia em abundância. Havia bebedouros espalhados por toda a parte o que permitia o grupo matar a sede e encher os pequenos contentores de água. 
     A vontade de ficar a observar as ruas era tentadora. Estavam num ambiente único onde tudo era novo e cativante. As pessoas pareciam olhar para eles como se pertencessem naquele lugar, como se fossem um deles. A natureza perfumava as ruas e estava infiltrada em cada edifício, em cada ranhura das paredes ou do chão. Os animais que passeavam pelas ruas em nada se comparavam com os da Terra, mesmo que tivessem as suas semelhanças. Apenas os cavalos que apareciam no seu caminho podiam ser chamados de tal e ainda assim, Melody e Ryan conseguiam apontar umas dez diferenças significativas entre os cavalos da Terra e os de Qaya. Troy achou piada a uma espécie de macaco que um morador tinha em cima dos seus ombros, fosse pela sua cor singular, fosse pela sua vivacidade.
     Eles caminharam durante horas e apesar de conseguirem visualizar o cimo da biblioteca não pareciam estar perto de lá chegar. 
- Talvez estejamos a andar à roda - atirou Melody. 
- Não me parece. Nunca passámos por aquela banca - Ryan apontou para uma banca onde se vendiam adornos em missangas. 
- Estamos a fazer algo de errado, isso é certo - disse Catarina. 
- Porque não paramos para descansar? Acho que vejo um jardim ao fundo da rua. 
- Vi, temos de continuar. 
- Não, não temos. Temos de descansar. A luz indica que já passou do meio dia. Estamos a andar desde bem cedo, precisamos de parar antes que alguém caia para o lado. Além disso, uma refeição vinha mesmo a calhar. 
- Não temos muita comida.
- Não faz mal. Arranjamos uma solução, mas, por favor, podemos parar? 
     Melody demorou a dar-lhe uma resposta e a irmã decidiu começar a caminhar para o tal jardim. Troy encolheu os ombros e junto com Catarina foram os dois atrás da personificação de Vénus. Ryan deu-lhe uma amigável cotovelada. 
- Sabes que eles têm razão. Não podemos ficar tanto tempo a andar - disse-lhe. 
- Eu sei. Mas eu só quero lá chegar o mais rápido possível. 
- Porquê? 
     Ela fitou-o. Parecia que os papéis se tinham revertido e Ryan era agora o bisbilhoteiro. Ela não admitiu, mas sentiu-se bem ao representar o papel dele. 
- Que tal essa história ficar para outro dia? 
     Ryan demorou apenas o tempo suficiente para se dar conta de que lhe dissera o mesmo uma vez: quando Melody tentara saber o porquê de ter-se ido embora durante seis anos. Ao realizar-se, sorriu com a ironia e por alguma razão, as palavras por ela proferidas souberam-lhe mais doces do que amargas. 

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