Underneath #48

     Troy acordou sobressaltado, de olhos esbugalhados e com muita falta de ar. O corpo rapidamente ficou sentado na cama com as costas arqueadas e a sentir uma dor terrível na cabeça, como se agulhas enormes e grossas estivessem a trespassá-la. Vozes grossas e finas, familiares e indistinguíveis, e o pior de tudo, estridentes, explodiam na sua mente. Nada de comparava àquela dor. Sentia que tinha estado apagado durante dias mas a agonia esteve sempre presente não o deixando descansar. Com as mãos a tapar os ouvidos, Troy curvou-se ainda mais tentando oprimir as vozes insuportáveis. Queria sair dali a todo o custo. Tirou o lençol debaixo das pernas com uma das mãos, voltando a colocá-la rapidamente no ouvido. A porta parecia estar tão longe. O corpo estava pesado, as suas pernas tremiam de fraqueza. Troy começara a suar, de calor, com dores. Cambaleou até à porta, abrindo-a, dirigindo-se para a frente. A visão turva nem lhe permitia destacar a ponte pouco firme. Só viu luz e isso era sinal de pessoas. Não fazia ideia de onde estava mas estava ali por algum motivo. Outra pontada se fez sentir nas suas têmporas até à nuca. Ele tombou, com um gemido preso na garganta, apoiando-se num pilar pequeno de madeira que prendia as cordas da ponte. Ele viu algo mexer-se ao fundo, a luz a tornar-se mais forte. Depois disso, deixou-se cair totalmente, sem força alguma para voltar a levantar-se. A sua boca abriu tentando pronunciar um nome e a sua garganta nunca esteve tão seca... - Violet? - Ouviu o seu nome a ser pronunciado e voltou a fechar os olhos. A sua mente deixou de ser um misto de raios, luzes fortes e perturbadoras, tornando-se apenas em escuridão onde as vozes desapareceram por alguns momentos. 

     Os seus olhos abriram lentamente. Sentiu um tecido leve e suave a envolver o seu corpo. O cheiro a floresta invadiu logo as suas narinas, bem como o cheiro a chá e flores. Mexeu a cabeça para o lado e a cabeça latejou logo. Os seus olhos pesavam, tinha os músculos doridos e tensos. Tudo lhe doía. Passou o olhar pelo espaço: um quarto de paredes em madeira, a luz da lua a banhar a sua cama, um cadeirão num canto do quarto e pelo canto do olho conseguia ver um tapete em tons de vermelho e bege. 
- Troy - chamou a voz trémula da mãe, com lágrimas nos olhos. Inclinou-se para abraçá-lo mas ela logo percebeu que o corpo doía-lhe. - Como te sentes, querido? 
     Ele nem conseguia abrir a boca e formular uma resposta. A sua mente encontrava-se vazia, os pensamentos distantes, a voz perdida. Ecos cortantes vagueavam pela sua cabeça e Troy perguntou-se se as vozes iriam alguma vez desaparecer... As memórias assolaram-o. Ele sabia que Saeva estava morto, perdido ao buraco negro, mas se Troy fechasse os olhos outra vez, os fios da Escuridão iriam aprisioná-lo de novo e ele não sabia se teria forças para se soltar. Troy limitou-se a apertar a mão da mãe com algum esforço virando a cabeça para o lado dela. Viu uma mesinha da mesma altura da cama com um copo e um jarro de água e tentou alcançá-los, no entanto, a dor no seu braço não o deixou mover muito. Charlotte viu o seu movimento, pegando no copo rapidamente. Troy fez um esforço para sentar-se sem sucesso. A mãe levantou-lhe a cabeça pela nuca, inclinando-a de modo a Troy conseguir beber. A água refrescou o seu corpo, diminuindo a força das três chamas dentro de si que queriam desesperadamente sair. 
- Queres que chame a Jade? Dói-te alguma coisa? - Troy abanou a cabeça levemente. - Tens a certeza, Troy? - Troy voltou a abanar a cabeça com mais vigor. A dor no pescoço foi mais forte do que pensava e engoliu em seco. Uma lágrima caiu-lhe pelo canto do olho do rosto inexpressivo. - Troy...- murmurou a mãe, com imensa preocupação no rosto. - O que aconteceu contigo? - Ele fechou os olhos com força virando a cabeça para o lado. - Eu vou estar sempre aqui, Troy - disse ela, a afagar-lhe o cabelo loiro. Deu-lhe um beijo prolongado no rosto. - Dorme um bocadinho.
     Troy não queria dormir. Não queria sonhar com as vozes, não queria reviver a agonia dos Planetas a serem destruídos. Mas a vontade do corpo falava mais alto. Troy fechou os olhos pesados, tentando ignorar a luz da lua, a sua enorme vontade de chorar e gritar e as vozes estridentes daqueles que destruiu.


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     A manhã veio e Troy não se sentia melhor. Tinha acordado várias vezes durante a noite consoante os pesadelos iam e vinham. No entanto, o corpo já não lhe doía tanto e a cabeça deixou de latejar na intensidade máxima. A voz continuava, porém, sumida, os pensamentos turvos e a mente enevoada. Quando acordou, a mãe ainda estava a dormir numa posição muito desconfortável e dava para perceber que era madrugada. O seu estômago começou a dar sinais de fome duas horas depois de ter despertado. Nesse mesmo momento, uma mulher negra apareceu, acordando a mãe. 
- Troy! - disse ela num sussurro. - Estás acordado há muito tempo? 
     Troy abanou a cabeça. 
- Como te sentes, Troy? perguntou-lhe a mulher, pondo-se junto ao cadeirão onde a mãe estava. - Acho que nunca tivemos a oportunidade de nos conhecer. Sou a Terra, mas podes tratar-me por Jade. Estás em minha casa sob os meus cuidados. 
     Troy nada disse. 
- Podemos falar lá fora, Jade? Aproveitamos e trazemos alguma coisa para comer, pode ser? - Virou-se para Troy. - Tens fome, querido? - Ele assentiu. - Já venho então - beijou-lhe a testa e saiu com Jade. 

- Finalmente acordou - disse Jade, contente.
- Sim, mas ele não está bem - falou em tom baixo, olhando para trás constantemente. - Não fala nem se consegue mexer - o semblante de Jade ficou carregado. - Tem aquelas olheiras terríveis debaixo dos olhos como se não tivesse dormido durante dias seguidos.
- Eu usei os meus poderes nele... Como é que ele tem dores no corpo?
- Pois, esperava que me pudesses dizer - respondeu Charlotte.
     Jade começou a atravessar a ponte e Charlotte seguiu-a com cautela. Não confiava naquela ponte. 
- Acho que o Troy está a sofrer uma espécie de trauma. Se não fala... Aposto que tem pesadelos. Ele acordou durante a noite? 
- Sim. Várias vezes. 
- Temo que seja isso. O seu psicológico está a afectar o físico - entraram em casa. - E quanto a isso não há muito que possa fazer. 
- O que sugeres, Jade? - perguntou, extremamente preocupada.
- Bem, para começar, ele vai ter de se rodear das pessoas que ele gosta, dos seus amigos, principalmente, pois foram eles que estiveram com ele este tempo todo. Mas é que claro que tu e o Steve têm de ser presenças constantes. Acho que o truque vai ser mesmo o tempo e a vontade dele de sair do buraco negro em que está. 
      Jade e Charlotte fizeram sandes, colocaram bolachas numa taça e preparam leite com chocolate. A primeira levou os tabuleiros até ao quarto de Troy. Ele parecia estar vidrado num ponto algures no tecto, sem sequer notar que elas tinham entrado. 
- O que vais querer Troy? Há sandes mistas e bolachas. 
     Charlotte tinha imensa esperança que ele fosse abrir os lábios e dizer alguma coisa, mas não o fez. Limitou-se a levantar-se, o que quase não conseguiu se não fosse pela personificação e a mãe, e apontou para as sandes. Jade trouxe-lhe almofadas extra para pôr atrás das suas costas. A mãe deu-lhe uma sandes num guardanapo e no final ele bebeu um copo de leite com chocolate. 
- As gémeas, o Ryan e a Catarina devem estar a chegar em breve. Têm vindo visitar-te todos os dias. A Violet fica aqui o dia inteiro. 
     Troy mostrou um sorriso por poucos segundos de forma quase imperceptível. Comeu outra sandes e bebeu mais um copo de leite. Queria comer o mais rápido possível para deitar-se novamente. As suas costas estavam a dar cabo dele e a dor subia até ao pescoço. Quando acabou, sentia-se cansado o suficiente para dormir outra vez mas decidiu não o fazer. Deixou a mãe falar-lhe de como as coisas estavam em Crystal Waters e em como Mercúrio e Urano estavam a ajudar com o bar. Disse também que a Melody e o Ryan estavam a estudar com muito afinco para os exames do último e relembrou-lhe que ele também tinha de os fazer. Ele nem se tinha lembrado deles até então. 
- Não sei como vai ser sinceramente... tu neste estado... exames à porta... Não há como teres cabeça para estudar. Aposto que estares de cama não vai ser razão suficiente para te deixarem fazer os exames da fase seguinte. - Troy sorriu ao ouvir o tom de voz da mãe. - Se conseguires por-te bom até à véspera, deixo o Ryan dar-te cábulas - ele nunca tinha ouvido a mãe sugerir tal coisa mas foi algo que ficou logo gravado na sua mente. - Mas isto vai ser só se não houver outra maneira, ouviste? E que o teu pai não sonhe com isto - sorriu ao ver o rosto mais iluminado de Troy. 
     Pouco depois, as gémeas apareceram com um sorriso e um olhar incrédulo nos rostos. Violet nem quis saber do que a Charlotte lhe dizia e foi abraçar Troy assim que o viu sentado. Os braços dela rodearam o seu pescoço, o cabelo soltou um perfume encantador, enquanto que a sua voz aquecia o seu ouvido. 
- Estás bem, Troy? Como te sentes? - ela viu que ele estava em dores e afastou-se logo. - Oh, desculpa. Não queria... - ao ver que ele sorria ligeiramente, Violet não conseguiu evitar esboçar um sorriso também. Ela também reparou nas olheiras e que os braços dele mal se moveram quando o abraçou.
- Olá, Troy - disse Melody atrás da irmã. - Sim, também estou aqui - acenou. 
- Desculpa, Mel - Violet saiu da cama e deixou a irmã dar-lhe um abraço. 
- Como te sentes? - perguntou ela. 
      Silêncio. 
- Troy? 
- Hum, o Troy perdeu a voz, mais ou menos... - disse a Sra. Evans. 
- Perdeu a voz? - questionou Melody. - Como assim perdeste a voz? - questionou de novo, dirigindo-se a Troy. 
     Ao ver o semblante de Troy mudar, Violet chamou a irmã, avisando-lhe para ter calma. Ela logo pediu desculpa. 
- Então - disse Charlotte, tentando anuviar o ambiente -, quando é que o Ryan vem? Os estudos estão a correr bem? 
- Sim. Acho que o Ryan é capaz de ter uma grande nota. Ele é mais inteligente do que eu pensava - comentou. 
- Não pode correr o risco de ficar para trás de novo - advertiu Charlotte. 
- Exacto - disse Melody. - Ele deve estar a chegar com a Catarina daqui a pouco - mencionou, olhando para o relógio. 
- Ansioso? - perguntou Charlotte a Troy. Ele assentiu, suavemente. Se queria dormir antes agora precisava mesmo. - Eu acho que devia dar-te algo para as dores. Vou ver se tenho um medicamento na mala - disse ela, saindo depois de apertar-lhe a mão. 
      As gémeas sentaram-se cada uma de um lado da cama. 
- Estás mesmo sem a voz? - perguntou Melody com um olhar curioso e cerrado e a sobrancelha ligeiramente levantada. 
     Troy encolheu os ombros com o olhar sonolento e apagado. As gémeas nunca viram alguém tão semelhante ao um morto-vivo quanto ele. 
- Tenta dizer algo - sugeriu Violet. - Qualquer coisa. 
      Ele abriu a boca pronto para dizer o nome delas mas não lhe saiu nada. 
- Que estranho - disseram as duas em uníssono. 
     Charlotte apareceu e trazia consigo uma caixinha branca. 
- Aquela ponte ainda vai magoar alguém. Como é que a Jade utiliza aquilo todos os dias? - comentou, ligeiramente sem fôlego. - Bem, tenho aqui vários. O que te dói, querido?
     Troy ficou a pensar como iria responder à mãe. Com a demora, Violet sugeriu ir apertando o corpo dos pés à cabeça para Troy lhe dizer a fonte de dor. Charlotte começou a pelas pernas, ao que Troy disse que sim com a cabeça, seguido das coxas, barriga, peito e braços. Em todos, Troy assentiu. 
- Mas a Jade curou-o, não foi? - questionou Melody. 
- Sim - respondeu Charlotte. 
- Que estranho - disseram as gémeas. 
- Posso tentar? 
- Força - disse Charlotte. 
     Nesse instante, apareceu uma luz azul-marinho que trouxe Ryan e Catarina. Ambos ficaram espantados com a aparência de Troy, a cara pálida, as olheiras a moldurarem-lhe os olhos esverdeados e um cansaço indiscutível. Ainda assim, Catarina aproximou-se dele num ápice envolvendo os seus braços no corpo dele. 
- Se voltas a fazer-me isto eu própria mato-te, Troy Evans - disse, num sussurro. Afastou-se um pouco, olhando para o rosto pálido com olheiras fundas. - Estás com um péssimo aspecto - brincou, sorrindo. O sorriso que Troy esboçou estava muito murcho e sem qualquer energia. 
- Como te sentes, Evans? - perguntou Ryan, tirando a mochila do ombro. - Pregaste-nos um grande susto. - Ryan queria abraçá-lo mas ao vê-lo completamente cansado apercebeu-se que o seu corpo devia estar magoado e por isso não o fez. 
     Passado uns segundos de profundo silêncio expectante, Melody interveio. 
- Oh, pois, o Troy não tem fala - atirou ela. 
- O quê?! - perguntou Catarina, virando-se para ela. 
- Pois, nós também ficámos assim - comentou Violet. 
    Catarina olhou para o namorado e este encolheu os ombros.
- Estás cansado? - Ele assentiu lentamente. 
- Bom, que tal a tua sessão de Cura, Violet? - questionou Charlotte. - Pode ser que ele adormeça entretanto. Ah, e vais tomar o meu comprimido na mesma - disse, dirigindo-se para o filho. 
     Troy assentiu, voltando a deitar-se na cama depois de tomar o medicamento. Catarina e Melody sentaram no cadeirão e Ryan buscou dois bancos de madeira para ele e para Violet. Ela não se sentou logo. Em seguida, ela tirou-lhe o lençol branco de cima do corpo semi-nu. O seu olhos foram directos para a marca no lado oposto ao do coração. Tinha agora uma pequena cicatriz a meio. Sem se aperceber, o seu dedo já estava a tocá-la e Troy tremeu. 
- Dói-te? 
     Ele assentiu. Violet soube que tudo o que ele passou estava a ser revivido na sua mente uma, e outra vez. Sem mais demoras, levantou as mãos, que brilharam subtilmente e ao aproximá-las do corpo, Troy voltou a tremer mas de frio. 
- Desculpa - pediu. - Daqui a pouco isto habitua-se à tua temperatura. Tenta adormecer. 
      Troy fechou os olhos mas não conseguiu mantê-los assim muito tempo. A luz que saía das mãos de Violet eram mais cativantes que os ecos na sua cabeça. O seu rosto exigia ser observado e sem querer, viu-se preso no olhar não devolvido dela. Ele lembrou-se de como ela cuidou dele da mesma forma que fazia agora. O seu coração bateu mais forte ao pensar na personificação de Vénus de uma maneira que não devia e preso nesses pensamentos, quando deu por si, tinha agarrado a mão dela.  
- Troy? - perguntou Violet subitamente corada. Troy sabia que o coração dela batia tão rápido quanto o dele. 
     Ele largou a mão, colocou o olhar no tecto e respirou fundo. Tapou o peito subindo o lençol e virou-se para o lado da mãe. Não sentia o corpo tão dorido quanto antes e encolheu-se na cama. 
- Parece que já te sentes melhor - disse a mãe. - Vais dormir? 
     Troy assentiu tentando esconder a face ruborizada. Catarina saiu porta fora de rompante. Ryan foi atrás dela e Violet estava prestes a ir também se não fosse a irmã. 
- Voltamos mais tarde. Dorme bem, Troy - disse Melody, antes de saírem. 
     O rapaz fechou os olhos, desejando que o sono o atingisse em segundos. Em vez disso, recebeu um aviso da mãe. 
- Se eu fosse a ti deixava-me estar sem essa fala durante mais tempo porque a Catarina nem vai poder ouvir-te. - Troy virou-se ao contrário, colocando-se de costas para a mãe. - Não vale a pena seres assim - disse, calmamente. - Eu não sei o que se passou entre ti e a rapariga no tempo que estiveste fora, mas a Catarina não tem de estar no meio disso. Portanto decide o que tu queres, antes que ela o faça por ti. 
     As palavras da mãe ficaram na cabeça dele até finalmente adormecer e mesmo assim, Troy acabou por sonhar com elas. Ele não sabia o que queria ou o que sentia. Ele já nem se lembrava como era não ter sentimentos pela Catarina e mesmo assim, Violet tinha-o marcado logo quando a viu pela primeira vez. Ele nunca tinha pensando nisto como agora... As atitudes que tinha com a Violet eram tão naturais que nunca se deu conta. O seu amor por Catarina era verdadeiro e amava-a realmente. Porém, tinha também sentimentos pela Violet. Aquele dia em Sebraryan debaixo da sombra daquela árvore foi a certeza de isso mesmo e por muito que não quisesse deixar o conforto do amor da Catarina, a aventura e o desconhecido proporcionado por Violet eram irresistíveis.
     Troy estava tão grato por estar acamado e sem fala naquele momento porque se estivesse bem de saúde, Catarina tinha explodido mesmo à sua frente. Sabia, porém, que quando tivesse de exprimir os seus sentimentos, alguém iria acabar mal e algo lhe dizia que era o próprio.

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